Espaço do Diário do Minho

Das ‘unhas pintadas’… ao estalar do verniz
12 Nov 2018
António Sílvio Couto

Andou divulgado nas redes sociais e nalguma comunicação social que uma senhora deputada foi fotografada a pintar as unhas durante a apresentação do orçamento de estado/2019. Ao que parece foi fácil de identificar a sujeita, que se manteve em silêncio até ao momento em que se achou no direito de rotular de ‘imprensa antidemocrática’ quem ousou difundir, comentar, acrescentar, vituperar tal façanha pouco digna para quem é paga com o dinheiro do povo, pretensamente discordante do seu comportamento.

Ler algumas das tiradas da dita deputada fazem corar o mais envergonhado da vida em sociedade, desde rotular de ‘pasquim’ quem não a considera, segundo ela, como devia, indo até à ofensa aos jornalistas e colaboradores dos jornais, televisões e órgãos de comunicação pela internet, invetivando intenções e quase argumentando com tentativas de golpes antidemocráticos pela simples razão de não serem da sua coloração, tanto partidária como de lóbi de costumes… Chega a dizer: ‘é a livre formação da nossa opinião que está em causa. É a democracia que está em causa’…

Quem quer ser respeitado tem de se dar ao respeito, pois, não será com dislates desta jaez que tal deputada será respeitada, dado que não aprendeu a conviver com a diferença de opinião e logo classifica de ‘antidemocrático’ nos outros o que talvez seja sua deformação…em abuso de poder e de posicionamento.

Já se suspeitava que a senhora se achava o suprema-sumo das ideias que fazem andar o mundo. Ora, o pai, que é uma das figuras mais venerandas da nossa vida democrática real, nunca quis atrair a atenção para tanto que fez nestes quarenta anos após a revolução. Pois, ela achasse no direito e na obrigação de se pretender respeitada por ela e pelo progenitor… Isso que diz seria tolerável no ‘estado novo’ que o pai serviu anos a fio! Ainda diz que a imprensa não é democrática. Aceitar o seu praguejar é algo do mais sublime que se pode entender e considerar para com quem não pode ser minimamente beliscada, se ainda houver onde e como!

= Este episódio quase rocambolesco dá como que a nota sobre algumas das figuras da nossa praça, que podem dizer tudo e o resto do que lhes apetece, mas que se melindram quando, metendo o pé na argola, são dignas de crítica, de serem ripostadas e, sobretudo, de não se acharem acima do resto da populaça, se bem que precisem dela para se manterem no poder com as mordomias que lhes estão adstritas, até de poderem pintar as unhas nas horas de serviço…

Começa a cheirar a regime de ditadura certos tiques dalguns que têm estado na atual governança: umas vezes combatem as rendas à habitação, mas auferem largas maquias com prédios, andares e heranças; outras vezes criam suplementos de impostos sobre meios de investimento, mas aprovam conluios de forças contra os seus proventos; nalguns casos fazem-se de vítimas para conquistar os desatentos, enquanto vão servindo interesses nem sempre claros e sérios… F

alamos de casos de barrigas de aluguer, das ideologias de género, de benefícios para turismo rural ou alojamento local, de aumentos de ordenados sem olhar a meios, de combate à iniciativa privada, que alimenta o sorvedouro do funcionalismo público…Quase tudo para proveito dos seus simpatizantes, eleitores e militantes!

Parece que tudo serve para dar depressa o que nos cairá encima da cabeça, quando não formos capazes de continuar a manter a vida de preguiça e de alienação que vai sendo o verniz da tanta desta gente sem escrúpulos nem princípios… democráticos e de tolerância. Porque não vão pregar este sermão da abundância às terras de Maduro e da Coreia do Norte, de Cuba e dalguns países esfomeados pelas opções (impostas) das suas correntes ideológicas?

Aqui pagam-lhes para desfazerem, lá podiam trabalhar para construir. Aqui têm a possibilidade de dizer e de fazer tudo o que lhes apetece – mesmo ofendendo quem pensa de forma diferente da sua – lá talvez pudessem ajudar a reivindicar o mínimo, desde os direitos cívicos básicos até à alimentação e à saúde. Aqui podem dizer mal do capitalismo, mas é este quem lhes sustenta a prosápia e os faz receber chorudos ordenados no parlamento europeu e nacional…

A democracia pressupõe – penso eu – diversidade. O pensamento único conduz – creio eu – à ditadura. A unanimidade – parece-me – faz dos cidadãos joguetes de poderes pequenos… sem valor nem qualidade. De facto, o verniz das unhas pintadas estalou e já pouco se pode remendar. Haja tento e bom senso, hoje e sempre!



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