Espaço do Diário do Minho

Davos, a Europa e o cuidar da alma
4 Fev 2018
Eduardo Jorge Madureira Lopes

Davos é, no final dos meses de Janeiro, durante alguns dias, o palco onde se exibem líderes mundiais e outros famosos, que, anualmente, vão à Suíça participar no Fórum Económico Mundial. O ensaísta e filósofo Rob Riemen é um dos que não aprecia o encontro.

Num breve e estimulante ensaio intitulado O regresso da princesa Europa (Lisboa: Bizâncio, 2016), considera que “se há lugar onde o espírito europeu não é e nunca será bem-vindo, esse lugar é Davos”.

O que aí se passa após a chegada do mundo empresarial internacional, da elite política e da comunicação social é assim descrito: “As reverberações de palavras vazias, a grandiloquência, o ruído, uma obsessão com o dinheiro e a tecnologia, a idolatria […] do Grande Número, o vazio intelectual, o analfabetismo cultural”. Nada disto tem préstimo numa Europa desalmada.

“Necessitamos de Voltaire na cimeira de Davos”, dizia um título nas páginas de cultura do diário El País de quinta-feira. Rob Riemen julgará preferível que a Europa se reencontre em Sils Maria, outra localidade suíça – que alguns conhecerão por causa de um filme recente de Olivier Assayas, com Juliette Binoche, Kristen Stewart e Chloë Grace Moretz nos papéis principais – que atraiu romancistas, poetas, pintores e músicos, como, por exemplo, Marcel Proust, Thomas Mann, Rainer Maria Rilke, Paul Celan, Marc Chagall, Yehudi Menuhin e até Anne Frank, quando criança.

É em Sils Maria que começa o ensaio, aproveitado para fazer uma apologia da alma e do seu cuidado. Este zelo é o que define os europeus, afirma Rob Riemen, citando o seu mestre Jan Patočka, um proeminente intelectual checo.

“A posse de uma alma significa que os seres humanos são as únicas criaturas plenamente cientes da sua própria vulnerabilidade, da sua mortalidade. É essa a ansiedade fundamental que qualquer homem ou mulher sente.

Ao mesmo tempo, é às nossas almas que temos de agradecer a nossa grandeza, porque nos permitem conhecer o absoluto, o eterno, o que não é transitório: a verdade, o bem, a beleza, o amor, a justiça. Ecce homo”. Para Rob Riemen, a grandeza dos seres humanos encontra-se na capacidade que têm para irem, com o tempo, incorporando estes valores espirituais, que são eternos.

O reverso da elevação que a alma proporciona encontra-se no “palavreado dos media”, na “conversa oca dos políticos”, no “discurso de vendas do comércio”, no “jargão vazio dos académicos”. “Tudo isso, literal e figurativamente, nada diz”. Tudo isso “é desprovido de significado”.

O que importa é “o cuidar da alma, a capacidade de dar ao eterno um lugar no tempo”. Esse trabalho “dá-nos a todos a capacidade de nos erguermos acima de nós próprios, de darmos o melhor de nós, de nos transformarmos, e de darmos à verdade e à justiça uma morada neste mundo”. A essência da Europa não é a política, a economia ou a tecnologia, mas a cultura, julga Rob Riemen.

Acrescenta ele que ser europeu significa também “lutar por uma sociedade europeia humanista em que o que é central na educação não é o indivíduo mas a ideia do ser humano – principalmente nas universidades onde os jovens podem adquirir uma consciência cultural e moral, onde se cultiva a alma humana de modo a que as pessoas se tornem moralmente maduras e sejam guiadas na sua sociedade por um desejo de verdade e justiça”.

Mas – “ecce mundus” – a Europa “não passa de uma União Económica em que os termos ‘alma’, ‘cultura’, ‘filosofia’ ou ‘viver em verdade’ são tão impossíveis como uma palmeira na Lua”.

“Em vez de cultivar a alma assistimos ao renascimento do nacionalismo, à trivialidade da tecnologia, à vulgaridade do comércio e à estupidez cultivada pelos media e pelas universidades”, diz Rob Riemen, explicando que “só isto, o cuidar da alma – o desejo que a alma tem de ser alimentada pela verdade e pela justiça e de viver num mundo verdadeiro e justo – só isto pode ser a bitola, a linha orientadora para um mundo que quer ser civilizado”. A explicação é, evidentemente, também, uma proposta.



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