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Tributo aos (meus) professores

Nesta quarta-feira, 18 de janeiro, no pátio da Universidade Paris 2 (Panthéon-Assas), foi dia de homenagem ao Professor que mais me inspirou. Catedrático em Ciências da Comunicação, Rémy Rieffel apresentava o seu último livro: “L’emprise médiatique sur le débat d’idées: trente ans de vie intelectuelle (1989-2019)”. À conferência-debate seguiu-se um convívio em jeito de despedida da academia daquele que marcou gerações de universitários. Referência europeia nos estudos sobre o jornalismo, os intelectuais ou a transição digital, o seu extensíssimo curriculum fala por si. Rieffel representa, todavia, muito mais do que as dezenas de publicações e as centenas de conferências que balizam o seu percurso intelectual. É um Professor com letra maiúscula, daqueles que deixam marcas indeléveis nas nossas vidas.

Cruzei-o pela primeira vez em outubro de 1996, na secretaria do Institut Français de Presse (IFP) – que Rémy Rieffel então dirigia – andava eu meio-perdido no preenchimento de formulários administrativos. Logo na primeira aula, marcou-me a pertinência e o rigor de um raciocínio que nos convidava a olhar, de forma crítica, para o mundo da comunicação e do jornalismo. A escolha do orientador para Mestrado e Doutoramento foi para mim uma evidência. Conheci ainda melhor a faceta do pedagogo que aponta caminhos sem nos substituir, que nos segue a meia distância proporcionando a aprendizagem da descoberta, mas nunca a sensação do abandono. Quando me convidou para ser professor-assistente, tive o privilégio de privar ainda mais de perto com um mestre erudito, discreto e íntegro. O prefácio que redigiu para o meu primeiro livro e uma carta de recomendação que guardo no fundo duma gaveta são dois insignes marcos que evoco com orgulho. Passaram-se os anos, ficou a amizade e a inspiração.

Outros mestres balizaram o meu caminho. O Frère Henri, que nos bancos duma escola primária de Clermont-Ferrand, nos incutia o gosto pela leitura com livros de aventura que levávamos semanalmente para casa. A Professora de Matemática – o seu nome não me vem à memória, Sottomayor talvez –, na Escola preparatória de Paredes de Coura, que soube incutir-me o amor pela lógica dos números, sem nunca descurar a integração de quem então chegava a Portugal. Já no ensino secundário, em Braga, o Professor Abílio Mariz, exímio pedagogo que nos ensinava a interpretar a História com olhos de ver. E na Faculdade de Teologia, os Professores António Esteves e Costa Santos que, de forma distinta, desconstruíam o que vinha nos manuais para nos ensinar a pensar por nós mesmos. E alguns outros que me perdoarão não citar aqui…

Também tive professores que não deixaram saudades: alguns esforçados, mas com limitações; outros cansados da vida ou da lecionação; outros ainda sem qualquer tacto pedagógico. Não eram feitos para o ofício. Mas muito do que hoje somos, devemo-lo a um conjunto de mulheres e homens que dedicaram a sua vida à educação, no sentido pleno do termo, a partilhar conhecimentos, rasgar horizontes e dar ferramentas às crianças e jovens que, ano após ano, lhes são confiados. Lamentavelmente, as condições de exercício da docência e as aprendizagens têm vindo a ser desnaturados por um conjunto de medidas e falta de visão política. Quando leio certos comentários redutores a propósito da atual greve de professores, penso nestes mestres que marcaram a minha vida, mas também aos meus primos Aida e Carlos que lecionam em Paredes de Coura e Loulé, aos meus amigos da Faculdade, à Anabela, à Eduarda, à Manuela, à Daniela, ao Paulo, à Lígia, ao José, ao Otávio e a tantos outros que, há décadas – apesar dos entraves sucessivos –, contribuem a que milhares de jovens sejam melhores cidadãos.

Deixo propositadamente para o fim o Pe. João Aguiar. Nas aulas de Jornalismo, incutiu-me a paixão pelo universo da comunicação e sugeriu, sem o saber, o rumo da minha vida. Mestre dotado da experiência da vida, do dom da palavra, de um refinado sentido de humor e da simplicidade das gentes do Gerês. Hoje, passa por uma situação deveras delicada. Quase todos os dias leio as suas reflexões. E pergunto-me: o que seriámos nós sem estes Mestres?


Autor: Manuel Antunes da Cunha
DM

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21 janeiro 2023