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Natal, nova vida

Eu sou aquele tipo de pessoa que nunca guarda lugar para mitos, crendices, ou superstições. Tenho muitas dificuldades em abandonar o meu racionalismo de formação e o meu espírito objetivo, que procuro solidificar em atitudes e posições sociais em que defendem o benefício imediato das pessoas, as suas condições de vida, numa palavra, a sua felicidade. Por isso, tornei-me um pouco avesso a quimeras, a promessas, a esperanças vãs. Mas o Natal foge e tudo isso. Continuo, no meu racionalismo, a ver o Natal como a época de magia do Menino Jesus que traz coisas docinhas para os meninos e as deixa nas meias, debaixo da cama, na noite de consoada (nunca na chaminé). Continuo a ver os telejornais de Natal, se bem que sempre iguais. Gostei, por mais repetida de ver que seja a cena, de ver o nosso Presidente da República cear com os mais pobres. Gostei, por exemplo, de ver o nosso futebolista Fábio Coentrão ceando sentado no chão, junto da sua numerosa família, numa modesta casa da Póvoa de Varzim, recordando tempo em que a casa era menor que o coração das pessoas. É claro que continuo a ver as mesmas cenas de guerra, ódio e violência. Nesse aspeto as coisas não mudaram; pelo contrário, pioraram por vemos cada vez mais poderosos incentivando o ódio. Mas ainda acredito no Espírito do Natal. Ainda acredito no Natal de Dickens e na redenção da humanidade. É por isso que de ano para ano vou adiando esse desencanto que ainda não sinto por esta época maravilhosa, em que o mais global se une ao mais particular: em que a humanidade inteira celebra a alegria no país próximo do seu coração: na família. Também no futebol parece viver-se este espírito de energia positiva e pacífica. Daqui a menos de uma semana há um Benfica-Sporting e parece que ainda ninguém se lembrou disso. As famosas guerras de palavra parecem ter tirado um intervalo de tréguas e até os papagaios da televisão tiraram férias. Que bom era para o futebol português que essas aves de arribação, esses abutres da verdade desaparecessem de vez, deixando um pouco de paz a quem apenas gosta de futebol! Depois, um lado ainda mais suave e discreto que contribui ainda mais para a renovação natalícia: novos grandes espetáculos desportivos a encher de festa diversos palcos desportivos mundiais: em ténis regressam os grandes duelos entre esses Senhores de letra grande Federer e Nadal; em fevereiro regressa o ciclismo, com novas promessas de grandes heróis da estrada como Gaviria, Molema ou o consagradíssimo Froome. A nível nacional regressam Sporting e Benfica a prometer dar às estradas portuguesas grande emoção. Regressa a Fórmula Um com novos cromados brilhantes, novos roncos de motores e emoções demolidoras. Finalmente, os grandes estádios britânicos, assim como o Parque dos Príncipes, encher-se-ão de entusiastas campeões do fair-play para as grandes e brilhantes transmissões de ragby. Enfim, há sempre um Natal na nossa vida, a trazer-nos mais um pedaço de esperança!
Autor: Manuel Cardoso
DM

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28 dezembro 2017