Não digo que não existam causas. Seria injusto que dissesse o contrário, mas têm vindo a escassear. Nada que a história não confirme. O rarear acontece sempre que o poder se dilata, como no caso de uma maioria absoluta que fornece amplo respaldo a quem governa. É a necessidade de estabilidade o argumento mais usado para se pedir ao eleitorado uma maioria, qualquer que seja o qualificativo usado, mas sempre se deterioram os princípios fundamentais depois de somados os votos. Sabemos como se caracteriza o poder ao fim de um certo tempo de governação. É vã a conversa quando se garante que a maioria absoluta é diferente de poder absoluto. É letra de pouca consistência. A maioria absoluta tende a ser de poder absoluto, qualquer que seja o inquilino que lá se coloque a comandar o destino dos eleitores. Abundam os exemplos. É o que se passa, por exemplo, quando a maioria trava a possibilidade da minoria ser ouvida, como quando a oposição pede a audição parlamentar de um membro do governo para que possa ser escrutinado determinado comportamento ou uma decisão questionável. O partido maioritário não permite e ponto. Neste último governo presidido por António Costa isso não tem sido nada ocasional, pelo contrário. A estatística é esclarecedora: por mais de uma dezena de vezes, o Partido Socialista impediu o esclarecimento cabal pretendido por um ou outro partido da oposição. É nestas alturas de casos - e são tantos! - que as causas ficam em segundo plano ou são mandadas às malvas. Desde logo, a causa do respeito democrático pela representatividade. Veja-se o que se tem passado quando eclodem polémicas com membros do Executivo, e têm sido inúmeras: discute-se até à exaustão cada polémica e deixam de ser tratadas questões essenciais. Nas últimas semanas, quase não houve assunto diferente para além do caso do secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro em lugar de se colocar a tónica no Orçamento de Estado, nos juros, na inflação ou ainda nos combustíveis e no desemprego. E às vezes, dá até a impressão de que os casos são até provocados para evitar que se discutam determinados problemas.
2. Decorreram oito meses desde que o actual governo tomou posse. Não é muito tempo, mas isso não obstou a que surgissem polémicas - e foram uma mão cheia, ou mais - que deixaram entender uma certa inconsistência e falta de coesão no elenco governativo. Um governo que precisa de se concentrar em questões internas não consegue abordar as causas mais ou menos importantes que foram sufragadas. O que temos tem evidenciado insistentemente essa característica. E quando há casos, escasseia o tempo para que o governo se debruce sobre causas.
A TAP era uma causa, havia que defendê-la, o que passava por trazê-la de volta ao domínio público. Tinha uma importância estratégica, nomeadamente, para a economia. Era uma aliada da soberania nacional. E esses argumentos eram ponderosos para que o país investisse mais alguns milhares de milhões. Só que de causa passou rapidamente a caso. Apesar do balúrdio de dinheiro do erário público que lá foi injectado, depressa os preconizadores da solução milagrosa se converteram. Não fizeram publicidade disso, mas deram-se conta de que estavam, afinal, enganados. Não o admitiram, contudo. A verdade é que não há mesmo volta a dar. E os contribuintes começam a ficar fartos do esbanjamento despudorado dos seus governantes. E do comportamento desleixado e irresponsável da empresa para com os clientes: cancelamento de voos e atrasos significativos - a TAP no seu pior! - que faz com que quem necessita de se deslocar por via aérea procure na concorrência, designadamente, nas low cost, a melhor solução, tornando ainda mais inviável uma das causas rosa mais emblemáticas da governação de António Costa. Certo é que a TAP não tem emenda e não merece mais o esforço dos portugueses. Há erros que custam muito caro. Pena que os políticos que nos representam não os paguem na medida da sua própria responsabilidade. Os cidadãos é que não têm culpa dos desmandos, incompetência e irresponsabilidade dos seus dirigentes. Ao menos, que não se candidatassem sem as características suficientes para a gestão de activos que foram conseguidos com muito trabalho e enormes sacrifícios dos contribuintes. Mas, é sempre mais fácil marimbarem-se para os resultados, responsabilizando a conjuntura. As verdadeiras causas não se esquecem nem se deixam para trás.
Autor: Luís Martins