O que aqui hoje se escreve não é uma crítica, é uma viagem de quem vem de lá, do passado e está cá, no presente/futuro. Tenho no passado uma barca ancorada. Esta barca nunca envelheceu; move-se a uma velocidade tão grande que mal a chamo logo diz presente. É assim porque tem como motor a lembrança e como combustível a recordação. Tenho no presente outra barca; dela falaremos mais adiante. Há uma barca, a segunda, que me fala do presente; diz-me que não há futuro, porque tudo foi ontem. Esta velocidade reduz-me a um simples espetador. Quedo-me a pensar, por exemplo, como é fácil ter um computador que me corrige os erros ortográficos, como é ótimo não precisar de decorar a tabuada, como não preciso de aprender a dividir ou a saber operar, como ótimo não precisar de enciclopédias ou dicionários para buscar conhecimentos. A primeira barca, a barca do passado, não se quer ver afundada nas águas do que foi e já não é. Saudades do tempo em que a moral social era rainha. O que a sociedade aprovava era indiscutível. Na escola, não se ensinavam apenas matérias curriculares. Era a escola dos valores sociais. Aqui se enformava enquanto se informava. A barca do presente deixa-me fazer pagamentos, transferências bancárias, hologramas, carros elétricos ou hidrogénio, e a liberdade. Naquele tempo tudo isto seria uma utopia à Júlio Verne, esse “escritor profeta”. Mas não havia liberdade, diz a barca nova à barca velha como quem encontra o seixo de David. Mas o que era nesse tempo a liberdade para a minha geração que nem sequer sabia que era permitido contestar os professores, faltar ao respeito aos pais, internar os pais em lares, fazer greves à escola? Foi uma geração que não sabia o que era reivindicar. Esta palavra era-lhe estranha, entaramelava-se-nos na boca; só a conhecemos depois do 25 de Abril de 1974. Esta geração não foi criada, foi domesticada pela obediência, diz-lhe a barca nova. É verdade, mas cria em Deus, defendia a Pátria e respeitava a Família; achava isto tão natural como o leite que bebeu em criança. Deixa-me interromper: não questionava, nem suspeitava que podia ser diferente. Deixa que te diga: a domesticação foi tão profunda que ainda teimam alguns viver na barca velha; depois um despertador tocou numa madrugada e a tua geração, barca velha, acordou estremunhada; tudo aquilo que tinha sido a base da sua educação foi posto em causa… mas acabaste com os valores familiares , sociais e até pátrios; foram abanados para que caíssem como folhas no outono. Mas nem todas caíram a todos. Mas quem te disse que não podes ser livre?! Houve excessos, é verdade?! O pássaro que tinha vivido décadas na gaiola, mal se viu livre, saiu estonteado, procurando, em todos os cantos, dar bicadas no passado. Aos poucos, porém, o estonteamento da euforia deu lugar ao bom senso e ganhou clarividência; a democracia fez ninho para que todos nele pudessem estar, mesmo para aqueles que preferem ficar na tua barca. Confesso, eu naveguei nestas duas barcas; desiludido com ambas, construí uma com os restos das duas: fui buscar à barca velha os valores que me formaram a minha personalidade e à barca nova os valores da liberdade que me formaram a minha atual cidadania. Permitam-me que diga como disse Gil Vicente, no Auto das Barcas.”À barca senhores, à barca” porque a minha leva em harmonia, os valores de dantes com as liberdades de hoje. Embarcai, senhores, embarcai.
Autor: Paulo Fafe