-
O que é uma ordália). Na linguagem comum, “uma ordália” (também se diz, no masculino) adquiriu o sentido de “uma provação, um sacrifício”, pelo qual uma pessoa (em princípio, inocente) tem de passar para triunfar, para levar a sua avante. A palavra é de origem germânica (frâncica, saxónica, etc.) e tem correspondência, p. ex. no alemão moderno, no termo “Urteil” (julgamento, sentença). No paganismo primitivo germânico, existia a crença irracional, de que se algum suspeito ou acusado, suportasse com êxito certas provas individuais (nomeadamente resistir ao fogo) isso era sinal de que estava inocente ou de que a razão estava do seu lado. A Igreja Romana não conseguiu erradicar estas e outras absurdas práticas de “justiça criminal”; e estas cerimónias “jurídicas” sobreviveram séculos, mesmo depois das conversões ao Cristianismo, na alta Idade Média.
-
O que são os Saxões). Na Antiguidade, os rios Reno e médio Danúbio eram mais ou menos a fronteira, para lá da qual começava a imensa Selva Hercínica, em cujos vales e clareiras habitavam as variadas tribos germânicas. A sua região histórica de origem tinha sido apenas o sul da Escandinávia, a Dinamarca, Holanda, Flandres, o norte e centro da actual Alemanha e boa parte do que é hoje Polónia (p. ex., os Godos habitavam o sul da Suécia, a ilha de Gotland, parte da Polónia e depois, a Ucrânia norte-ocidental). Entre os outros povos germânicos, lembremos os Lombardos, os Francos, os (heróicos) Cheruscos, os Marcomanos, os (nossos) Suevos, os Vândalos, os Hérulos, os Frisões, os Alamanos, os Burgúndios, os “velhos” Cimbros e Teutões, os Gépidas, os Quados, os Batávios, os Hermonduros, os Sicambros, os Tencteros, os Bastarnos, os Menápios, os Ruges, os Nérvios, os proto-sueco-noruegueses… e outras tribos menores. Tudo isto, sem referir os Anglos e Jutos; e, “last but not the least” … os Saxões.
-
O brilhante destino histórico dos Saxões e Anglos). Após mais de 2 mil anos de História, vistas bem as coisas, os Anglo-Saxões foram os únicos povos germânicos que conseguiram (fora dos exíguos “muros” da antiga Germânia) conquistar e colonizar uma vasta área do Mundo; a qual, ainda hoje (e apesar dos esforços bem sucedidos dos seus muitos inimigos…), continua a ser do seu (muito relativo) domínio político e cultural. Saltando, no séc. V d. C., do norte da Alemanha para o sul e centro da Inglaterra (depois, para o norte e para as “lowlands” escocesas e para o Ulster), os Saxões criaram um estado (reino) que desde o tempo da gloriosa “rainha-virgem”, Elizabeth I (1533-1603) atravessou os mares e colonizou a América do Norte (EUA e Canadá), a Austrália e Nova Zelândia, a Rodésia do Sul (hoje Zimbábue) e as históricas províncias sul-africanas do Cabo e do Natal. Além do mais, desde a 2ª metade do séc. XIX (e até a década de 1960) eram senhores de boa parte da África Negra (aumentada em 1918 com as colónias, roubadas aos alemães, da Namíbia, Tanzânia e Togo, já que os antes “prussianos” Camarões ficaram para a França).
-
A Inglaterra saxónica e os “velhos Saxões”). “Ald Seaxa” era o nome com que os velhos textos anglo-saxónicos designavam os irmãos que tinham ficado no norte da Alemanha. Tribo poderosa que só foi cristianizada à força no tempo do franco-germano Carlos Magno. Numa longa guerra contra o rei saxão Widukind, que durou de 772 (destruição da “árvore sagrada de Irminsul”) até 804. Os saxões, agora cristianizados, constituíram depois, na Alemanha medieval (e até hoje…) um dos seus núcleos mais poderosos. Hamburgo, Bremen, Hanover, Magdeburgo, Berlim, Lubeque, Rostoque, Dresden, Halle, Leipzig, Jena, Zwikau, Cottbus, Brunsvique… Todas são cidades saxónicas.
-
A natureza germano-celta dos 4 povos britânicos). Note-se que os saxões e anglos da Inglaterra logo se misturaram com a população celta local. O (verdadeiro) inglês de hoje é um germano-celta (tal como os escoceses e boa parte dos galeses e irlandeses, fruto também das longas invasões dano-norueguesas posteriores). Facto que só os terá beneficiado antropologicamente a todos
-
Carlos III supera a sua “1ª ordália”). O que se passa no topo da política inglesa actual, com o povo a assistir, tolhido, formal, impassível, narcotizado, dava um bom episódio dos antigos “Monty Python” (o “Yes, minister” é pouco…). Após o consulado do inimitável “clown” Boris Johnson, um neto de judeus turcos e ucranianos, um mentiroso esperto e convincente… veio a igualmente anti-russa obcecada Liz Truss (que na juventude era liberal e adepta das drogas leves). E como decerto “não há” ingleses capazes de liderar os próprios “Conservadores” (e a Nação…), o melhor que se arranja é um hindustânico jovem, magrinho e rico, o dr. Sunak. Que logo reabilitou para ministra a sua inapropriada conterrânea Braverman (raio de nome…), que se acabava de demitir por falar de assuntos de Estado ao telemóvel. E como Cunhal no passado (a respeito de Mário Soares) Carlos, o rei dos Saxões, lá “fechou os olhos e engoliu o sapo”. Prova superada. Não se nada contra a maré…
Autor: Eduardo Tomás Alves