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60 Anos de Vaticano II

Escrevo este texto no dia 11, 60.º aniversário do início do Concílio Vaticano II. Tinha, então, 20 anos e frequentava o 2.º ano de Teologia do Seminário de Braga. Quem me falava e informava algo sobre esse magno acontecimento eram meus tios: padres Carlos, Júlio e cónego António que se informavam sobretudo pelos jornais e revistas que recebiam do estrangeiro. No Seminário, praticamente não se falava nem tínhamos informações mínimas do que ocorria em Roma. Não havia qualquer correspondente de jornais portugueses na cidade eterna. Meu tio, padre Júlio Vaz, recebia dois jornais espanhóis através do amigo Bueso, que tinha implantado uma empresa em Braga e mantinha com meu tio as melhores relações. Um desses jornais era o ABC, de Madrid, que tinha como correspondente em Roma o famoso jornalista e escritor, José Luís Martin-Descalzo. Com base nele e noutras publicações, procurava dar algumas notícias no «Diário do Minho», numa rubrica intitulada «Ao correr da pena». Mas tal foi quase logo proibido pelo arcebispo de então, D. Francisco Maria da Silva, um dos que não via com bons olhos as mudanças que se iam propondo, sobretudo a liberdade.de opinião e expressão. Sinal do menor apreço pelo Vaticano II e as reformas que propôs, a começar pela reforma litúrgica, com a constituição «Sacrosantum Concilium» é o facto de, em 29 de Agosto de 1965, ainda eu ter de celebrar em Latim a Missa Nova, embora fosse nesse mesmo dia que se celebrou em Braga, no Sameiro, a missa em língua vernácula. Quando, em 1968, fazia o curso de preparação para o doutoramento em Teologia, pude ver na televisão italiana parte do discurso famoso que, nesse já passado dia 11 de Outubro de 1962, João XXIII tinha feito da varanda do seu quarto, já noite, dado que a multidão não abandonava o Praça de São Pedro. E o bom papa João, que tinha feito uma memorável homilia programática na missa de início do Concílio, dizia ao seu secretário que não tinha mais nada a dizer. Mas as pessoas não arredavam pé da praça de São Pedro. Queriam ouvir o Papa. E então, espontaneamente, João XXIII saudou a multidão e começou, mais ou menos desta maneira: «Boa noite, caros amigos! Até a lua nos acompanha nesta linda noite. Vós que tendes alguém doente lá em casa, dizei-lhe que o Papa lhe manda uma saudação muito sentida e deseja melhoras; vós que estais com problemas de vária ordem, sabei que o Papa está convosco e vos tem presentes nas suas orações». E a multidão interrompeu várias vezes com salva de palmas prolongada. Era uma linguagem nova e uma nova maneira de falar às pessoas. Mais importante que a ortodoxia da doutrina e o incutir o cumprimento rígido das normas, estava a proximidade afectiva aos problemas que as pessoas carregam. Era um discurso que, na sua total espontaneidade, espelhava o verdadeiro espírito que queria estivesse bem presente nos bispos reunidos em Concílio. Uma aposta pela compreensão mútua, o respeito pela dignidade de todos, a bondade e a misericórdia. Com tonalidades próprias, os papas que lhe sucederam nunca mais esqueceram que o mais importante são as pessoas e os problemas que as afligem. A Igreja deve dar resposta a tais inquietações e anseios. E isso ficou plasmado de uma maneira nova na famosa constituição sobre a Igreja no mundo contemporâneo, intitulada em latim «Gaudium et Spes» (Alegria e esperança) cujas primeiras palavras são: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração». (nº 1) Bem vistas as coisas, está nestas palavras o desafio maior para a Igreja: incarnar de verdade tudo o que é humano, pois «a Igreja sente-se real e intimamente liga ao género humano e à sua história». O papa Francisco diz que são necessários 100 anos para materializar as intuições de um concílio. Já muito se fez nestes 60 anos, mas cada dia vemos que é preciso fazer viver de verdade e implantar as intuições e decisões do Vaticano II. A começar pela revitalização da Liturgia, de modo que os cristãos sintam e experimentem o maravilhamento da celebração. Os que já temos 60 anos de Concílio estamos agradecidos por tudo quanto de bom nos proporcionou. E queremos colaborar, enquanto tivermos energias, força e vida, para que se torne cada dia mais uma consoladora e provocadora realidade. Há sempre lugar para sermos tomados de assombro, encanto e maravilhamento com o que Deus nos propõe e espera de nós. Sobretudo agora que temos a certeza de que a Igreja ou é sinodal, ou se renega a si mesma.
Autor: Carlos Nuno Vaz
DM

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15 outubro 2022