Em Braga, há quem chame “carroólicos” às pessoas que pegam no automóvel para quase tudo – caraholic em inglês. A palavra provoca, mas aponta para um problema real: milhares de bracarenses têm poucas alternativas para as suas deslocações diárias.
Pensemos numa viagem de dois quilómetros até à escola. Se o percurso tem passeios interrompidos, atravessamentos inseguros e um autocarro que demora 40 minutos por causa do trânsito onde ele fica bloqueado, então pegar no carro torna-se a solução prática. A dependência começa muito antes de ligar o motor: começa nas escolhas feitas sobre o desenho das ruas e o investimento em transportes públicos.
Segundo os estudos de mobilidade de Braga, cerca de 250 mil deslocações diárias de automóvel são inferiores a três quilómetros e acontecem apenas dentro do concelho. Muitas deslocações são difíceis de substituir por outros modos de transporte, com as condições atuais, e a fatura desta obrigação mantém-se elevada para cada pessoa. É precisamente por isso que as condições têm de mudar.
A primeira fatura chega a casa. Comprar e manter um carro implica pagar seguro, impostos, manutenção, combustível cada vez mais caro e a perda de valor do veículo. Quando uma família precisa de dois automóveis para conseguir trabalhar, levar crianças à escola e aceder a serviços, uma parte importante do rendimento fica comprometida antes de o mês começar.
Há também uma fatura coletiva. Segundo a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, os custos económicos e sociais da sinistralidade rodoviária em Portugal atingiram, em 2023, 7,2 mil milhões de euros, cerca de 3% do PIB. Por trás desse valor estão pessoas mortas ou feridas, cuidados de saúde, incapacidades e perda de produtividade. Em Braga, os atropelamentos recordam-nos que esta conta tem consequências humanas nas nossas ruas.
O congestionamento cobra tempo todos os dias. Numa estimativa para a União Europeia, a Comissão Europeia apontou custos próximos de 1% do PIB. Nas filas de Braga, esse custo sente-se no tempo perdido por quem conduz, por quem espera no autocarro e por quem precisa de fazer entregas ou prestar serviços.
Acrescem a poluição, o ruído e o espaço ocupado. O urbanista Donald Shoup mostrou que o estacionamento apresentado como gratuito tem custos que acabam por ser suportados por todos. Uma rua preenchida por carros estacionados perde espaço para árvores, passeios confortáveis, esplanadas, ciclovias ou transporte público mais eficiente.
Estas faturas resultam também de decisões municipais. Cada urbanização aprovada sem serviços próximos, cada rua construída sem passeio contínuo – seja em que parte do concelho for – e cada autocarro deixado preso no trânsito tornam o automóvel mais necessário. O mesmo acontece quando se adia a reserva de canais para transportes públicos ou uma rede ciclável coerente.
Braga pode oferecer mais escolhas: percursos pedonais e travessias seguras, frentes escolares seguras, autocarros frequentes com prioridade nas ruas e bairros onde os serviços do dia a dia estejam próximos. O automóvel continuará a ser necessário para muitas viagens. A diferença está em permitir que deixe de ser obrigatório para quase todas.
Quando uma família pode dispensar um segundo carro, ganha margem no orçamento. Quando mais pessoas conseguem deslocar-se com segurança e sem ficar presas no trânsito, ganha o concelho inteiro. Essa é a fatura que vale a pena reduzir.