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O Envio: «Glorificai a Deus com a vossa vida»

A última parte da missa deveria chamar-se «Envio», mais do que conclusão, porque não se trata de a acabar, mas de a concluir «enviando», como, aliás, indica o termo «missa». E isto não quer dizer que haja 4 partes na eucaristia, mas apenas duas: a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística, tão estreitamente unidas entre si que constituem um só ato de culto. (Chauvet, obra citada, p. 121).

A palavra «missa» procede do verbo mittere que, na antiguidade, marcava o envio ou despedida das pessoas que, depois de terem escutado a palavra de Deus e a homilia do bispo, não tinham direito a participar na eucaristia. Era o caso das pessoas que, consideradas gravemente infiéis ao batismo recebido – por um adultério, um ato sacrílego, um assassinato – ficavam sujeitas à penitência pública que só acontecia depois de uma celebração de reconciliação com Deus e com a Igreja, celebração que também era pública.

Nos primeiros 4 séculos, a comunhão era norma para todos – salvo para alguns casos de «excomunhão», no sentido literal de «privação da comunhão». Havia também todo um caminho e prática da igreja que santo Ambrósio sintetiza muito bem: «Se o pão eucarístico é quotidiano, porque esperar um ano para que o recebas, como costumam fazê-lo os gregos no Oriente?». Cf Chauvet, o.c. p. 123 e nota 2).

É certo igualmente que, a partir do século IV, quando a Igreja começou a gozar de uma certa liberdade, se multiplicaram as conversões, mas também, de maneira quase inversamente proporcional, o fervor tendeu a diminuir, de modo que os casos de infidelidade ao batismo se tornaram mais numerosos. E como o regime de penitência pública era demorado – por vezes demorava anos – muitos cristãos temiam submeter-se a ele, pensando que o remédio era pior que a doença. Tanto assim era que São Cesário de Arles, morto em 542, permitia que os fiéis, na sua imensa maioria, pospusessem a sua petição de penitência até à velhice, ou inclusive até ao leito de morte. Com uma condição: que fizessem da sua vida uma preparação para essa penitência final solicitada, senão corria o risco de se tornar inútil para a salvação. Isto pode ajudar-nos a compreender o facto de que, a partir dessa época, muitos fiéis saíam da igreja no final do que hoje chamamos ‘Liturgia da Palavra’. Daí que essa despedida – «missa», em latim –, não significava, como se disse tantas vezes: «ide, a missa terminou» – o que também não era falso, mas significava: «ide, sois enviados», ou «ide, eu vos envio». E há aqui um autêntico paradoxo: «a missa começa quando termina!». (p. 124)

A missa não termina com uma «conclusão», mas com um «envio». Isto é fundamental para entender o que a Igreja faz na Eucaristia. Ou seja, a vida cristã é precisamente aquilo a que conduz o momento do «envio». A missa adquire um sentido especificamente cristão tendo em visto algo distinto de si mesma. Celebra-se para glória de Deus e salvação do mundo, mas é a vida de cada um que constitui um louvor de Deus. Na tradição do que os profetas afirmaram com veemência, a Deus não lhe importam os sacrifícios do Templo, nem as nossas missas de hoje, se o coração e a vida de quem participa nos atos religiosos não estão em harmonia com o que estes significam. É a vida que constitui o verdadeiro louvor de Deus. Santo Ireneu insistiu em que, se Deus pediu os sacrifícios da antiga Lei, não foi porque lhe eram úteis a Ele, mas a quem os oferecia: «estando desprovidos de graça, aprendiam, por meio desta prática ritual, a gozar da graça. Isto fica mais patente se tivermos em conta o maravilhoso jogo de palavras que se observa na língua grega: «de ‘a-carísticos’, passavam a eu-carísticos». E insiste: «estes sacrifícios não têm nenhum valor aos olhos de Deus, se a vida daqueles que os oferecem não está em harmonia com eles. (Cf. Pp, 127-128)

São Paulo afirma isto mesmo com toda a clareza: «Rogo-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, que ofereçais os vossos corpos como sacrifício vivo, consagrado, agradável a Deus; este é o culto que deveis oferecer». (Rom 12, 1) O autor da carta aos Hebreus, dado que havia cristãos que abandonavam as suas assembleias por serem muito simples e sem a grandiosidade e esplendor do culto no Templo de Jerusalém a que queriam voltar, diz-lhes: «Não abandoneis as vossas próprias assembleias como alguns têm costume de fazer» (Heb 10,25). Contra esta tentação, incita-os a oferecer a Deus, sem cessar, um sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome. «Não vos esqueçais de fazer o bem e de partilhar os vossos bens com os outros, pois esses é que são os sacrifícios que agradam a Deus». (Heb 13, 15-16).

A nossa liturgia da missa evoca claramente tudo isto. Por exemplo, na Oração Eucarística III, diz-se: «que o Espírito Santo nos transforme em oferenda permanente para que gozemos da tua herança». Há também várias orações depois da comunhão que se inscrevem nesta perspetiva: «Que se faça realidade na nossa vida o que recebemos neste sacramento»; «Que este alimento de caridade fortaleça os nossos corações e nos mova a servir-te nos nossos irmãos»; «Que nos transformemos no que recebemos: o Corpo de Cristo». Ou ainda as últimas palavras do sacerdote sugeridas pelas novas versões do missal: «Glorificai a Deus com a vossa vida. Ide em paz e o Senhor vos acompanhe».

Concluiremos esta parte no próximo texto.

Carlos Vaz

Carlos Vaz

7 outubro 2026