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Mundial: Montra da formação ou da prospeção?

Em plena época de Mundial de Futebol, com os melhores atletas do mundo em ação, vários clubes aproveitam para recordar que determinados internacionais passaram pelos seus escalões de formação. É uma forma legítima de divulgar o trabalho realizado e de reforçar o prestígio da Instituição. Mas será tudo tão linear? O facto de um internacional ter passado por determinado clube diz algo sobre a qualidade da sua formação ou revela, sobretudo, a eficácia da sua prospeção? Será a formação ministrada nos (ditos) grandes clubes, nas idades de iniciação, necessariamente superior à de clubes menos mediáticos?

É inegável que existe maior exigência nos treinos. Afinal, o recrutamento constante dos mais talentosos em clubes de menor dimensão, permite reunir, sob o mesmo símbolo, muitos dos melhores jovens de cada geração. Porém, essa vantagem traz consigo um paradoxo: quando quase todos são melhores do que os adversários, a verdadeira exigência passa a existir apenas nos treinos e um dos princípios frequentemente invocados na formação – o de que a competição é o melhor indicador da evolução dos jovens atletas – fica comprometido quando os campeonatos são sistematicamente marcados por goleadas de dois dígitos. Nestes casos, os resultados poderão dever-se menos à qualidade da formação e mais à qualidade da prospeção que conseguiu concentrar o talento existente na região. Apetece dizer que mesmo com treinadores muito incompetentes os títulos aparecem, devido à superior qualidade dos jogadores. 

E, infelizmente, a história não termina aí. No final de cada época chegam novos potenciais “internacionais” identificados pelos prospetores e, para lhes dar espaço, alguém tem de sair. Muitas vezes, aqueles que haviam sido recrutados um ou dois anos antes, sem que tenha havido tempo para se avaliar devidamente a sua evolução, adaptação ou maturação, porque ninguém reflete sobre o impacto que representa para uma criança deixar um contexto onde era a principal referência, para ingressar num outro onde todos têm qualidades semelhantes, ou até superiores.

E quando chega o difícil momento destes potenciais atletas regressarem “a casa”? Estão preparados para voltar aos clubes de origem? E estarão estes disponíveis para os receber de novo? Quando uma destas condições falha, o risco de abandono precoce aumenta exponencialmente. E essa é, provavelmente, a maior derrota que pode acontecer na formação desportiva. Muito pior que qualquer goleada, conquistada ou sofrida.

Por isso, enquanto os holofotes do Mundial iluminam os grandes palcos, talvez valha a pena lembrar que o verdadeiro sucesso da formação não se mede pelo número de internacionais que um clube exibe, mas sim pelos milhares de jovens que continuam a praticar desporto e a crescer como atletas e como pessoas, independentemente de chegarem ou não a vestir a camisola de uma seleção nacional. 

Porque um internacional é sempre uma história de sucesso. Mas uma boa formação deve preocupar-se, antes de mais, em evitar que milhares de outras histórias terminem antes sequer de terem começado a ser escritas.


 

Carlos Mangas

Carlos Mangas

26 junho 2026