Admito que ignoro o motivo para este mito. Quiçá tenha surgido para se sustentar, de viés, que foi apenas em contexto de uma Igreja ligada ao Império Romano (e, assim, no séc. IV e afastada hipoteticamente da “fé original”) que se passou a afirmar a divindade de Jesus, também através da sustentação de “máximas” relacionadas com a doutrina da Salvação. Ou seja: que até esse “Cristianismo Imperial” não havia somente uma linha ortodoxa acerca da divindade (ou não) plena (ou não) da Pessoa de Jesus e, assim, da Pessoa de Deus-Filho.
Não me focarei, presentemente, nesses debates, pois não são o foco deste texto. Mas uma realidade é certa: já nos textos do atual Novo Testamento há evidentes expressões sintéticas (e, desse modo, quase podendo ser tidas como “máximas”) acerca da Salvação (conectadas, por conseguinte, com a relação entre Deus salvador e o ser humano salvo). Basta recordar duas: «Não há qualquer outro nome [além do de Jesus] que nos possa salvar» (At. 4,12); «Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores» (1Tm. 1,15).
Posto isto, é só no final do séc. II que encontramos, em Ireneu de Lyon, o embrião da primeira das duas grandes “máximas” teológicas da Igreja Antiga sobre o tema em apreço: a do assim intitulado “maravilhoso intercâmbio”. Uma “sentença” que, em tal autor, surge formulada da seguinte forma: «[o Verbo incarnou] para que o homem, entrando em comunhão com o Verbo e assim recebendo a adoção divina, se tornasse filho de Deus» (“Contra as heresias”, 3, 19, 1).
Pretende dizer-se, com palavras citadas, que não há caminho para Deus senão aquele caminho elegido por Deus para vir ao encontro do ser humano: Jesus Cristo (o eterno Deus-Filho que, há dois mil anos, passou a ser, igualmente, o filho de Maria e de Deus). Um Jesus, plenamente divino e plenamente humano, que refez, em sentido oposto, o caminho de Adão.
Ora bem: é evidente que, juntamente com as afirmações bíblicas citadas (e outras que a elas poderiam ser anexadas), o “aforismo” de Ireneu já é suficiente para se negar o sustentado pelo presente mito. E isto é assim, por mais que seja verdade que esta “sentença” só venha a encontrar a sua suprema relevância no séc. IV (com Atanásio de Alexandria) e a sua mais minuciosa exposição no séc. VII (com Máximo o Confessor).
No que concerne à segunda grande “máxima” sobre a Salvação (que eu disse existir na Igreja Antiga), diga-se que a mesma surge a meados do séc. III e refere-se à usualmente designada “assunção sanante”. Essa “sentença” formará, com a primeira, uma parelha crucial a respeito de quase tudo o que é o apoio central para a mais correta compreensão da dinâmica salvífica operada por Jesus. É no número 7 do texto (originalmente taquigrafado) sobre o “Debate de Orígenes com Heráclides”, que a encontramos com as palavras «o homem não teria sido salvo na sua totalidade se [o Salvador] não tivesse assumido o homem na sua totalidade».
Com esta frase deseja-se, por um lado, defender a plena humanidade de Jesus Cristo, e, por outro lado, garantir a salvação plena da integralidade de cada ser humano: corpo (e o seu suporte material transfigurado), alma e espírito. Note-se que, pese esta “sentença” venha a ter uma mais concisa declaração na “Carta 101” de Gregório de Nazianzo (do ano de 383), é errado aludir, pelo que já disse, que só aí surge a segunda “máxima” cristã sobre a Salvação.