twitter

Paz – Sinal de Páscoa

Somos constantemente invadidos por notícias de guerra. A violência tornou-se parte do quotidiano das pessoas, nos mais diversos cantos do mundo. Há conflitos que dominam os meios de comunicação, marcados por uma sofisticação bélica que agride a consciência da humanidade. Mas existem muitos outros, deliberadamente esquecidos, que não são menos graves: permanecem longe dos olhares, mas continuam a provocar morte e a impor condições de vida desumanas. A guerra é, sempre, um escândalo que, se fosse evitado, permitiria a tantos uma vida digna.

A Igreja nunca se demitiu perante esta realidade. Continua a erguer a sua voz em favor dos que não têm voz. Contudo, os interesses e as ideologias persistem em destruir e em ceifar vidas. Proclama-se uma sociedade defensora dos direitos humanos, mas, em muitos lugares, a vida humana parece ter perdido o seu valor.

A guerra não pode ser ignorada. Por isso, os Papas não cessam de a denunciar e de implorar que se calem as armas, cada vez mais destruidoras, porque cada vez mais sofisticadas.

O Papa Leão XIV iniciou o seu serviço petrino com um apelo firme à paz. Repetiu-o em diversas ocasiões. Ainda na última Páscoa afirmava ser “urgente acabar com as guerras” e “percorrer os caminhos do diálogo, para que a paz se torne justa e duradoura”.

Mas há uma dimensão desta realidade que não pode ser esquecida. Nesse mesmo contexto, o Papa sublinhava que a Igreja (e nela, cada cristão), deve “levar a paz aos próprios ambientes”. Com efeito, quando Jesus, ao anoitecer do dia de Páscoa, aparece aos discípulos, fechados por medo, saúda-os com palavras que permanecem eternas: “A paz esteja convosco” (Jo 20, 19).

Queremos a paz no mundo, mas ela começa sempre no coração de cada um. Antes de ser projeto exterior, a paz é experiência interior. Só um coração pacificado é capaz de gerar caminhos de reconciliação e de construir relações novas. Aqui se revela uma das notas mais originais do cristianismo. Se, no tempo de Jesus, os judeus privilegiavam a Lei, Cristo, sem a rejeitar, propõe algo mais profundo: uma vida transformada a partir de dentro, marcada pelos valores do Evangelho e por um modo de ser que transborda em todas as ações. Antes do que fazemos, conta aquilo que somos.

Os ambientes em que vivemos refletem inevitavelmente o espírito de quem os habita. A família é disso exemplo evidente: basta uma atitude desajustada para perturbar o que outros, com dedicação, procuram edificar. O mesmo sucede nos contextos profissionais, onde nem sempre reina a serenidade e, tantas vezes, se atribuem culpas às lideranças, quando uma única personalidade conflituosa pode gerar instabilidade. Também nas comunidades cristãs, chamadas a ser espaços de comunhão e fraternidade, surgem, por vezes, egoísmos que geram divisões e impedem que se tornem verdadeiros sinais de família e de paz.

Se a paz, entendida como ausência de guerra, é urgente, não o é menos esta paz interior que nasce no íntimo de cada pessoa. Celebramos os oitocentos anos da morte de São Francisco de Assis. A oração que lhe é atribuída, tantas vezes cantada e rezada, deveria tornar-se um verdadeiro programa de vida: “Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz…”. O mundo precisa destes artesãos da paz, em todos os lugares e circunstâncias.

Fala-se hoje da necessidade de uma “nova ordem” e de um “novo início”. Mas a paz só se tornará visível quando aceitarmos que essa renovação começa em cada um de nós, como uma verdadeira revolução interior.

Permanece viva na memória a imagem impressionante do Papa Francisco, sozinho, sob a chuva, na Praça de São Pedro, em plena pandemia. Era 27 de março de 2020. Nesse momento, deixou um apelo que não pode ser esquecido: é tempo de “reorientar a vida para Ti, Senhor, para os outros e para a criação”. Essa reorientação exige coragem, mas é indispensável: a nível pessoal, comunitário, eclesial e social.

Recordo ainda as palavras do bispo e teólogo alemão Klaus Hemmerle: “O mundo de hoje precisa de adquirir ‘olhos de Páscoa’.” Com esse olhar novo, seremos capazes de reconhecer que nada pode permanecer igual e que a paz não é apenas um ideal distante, mas um caminho a construir, dia após dia.

D. Jorge Ortiga

D. Jorge Ortiga

25 abril 2026