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A nossa Liberdade, que já vem de longe

A surpresa estava quase anunciada. Depois de um ensaio falhado a 16 de março, escassas semanas depois, a 25 de abril de 1974, os militares derrubavam a ditadura instalada em Portugal. 

Depois fez-se revolução. 

Desde a primeira hora, a alegria popular mostrou-se contagiante. As exigências de liberdade arvoravam-se desmedidas, as manifestações multiplicaram-se por ruas e praças, a utopia ganhou foro de horizonte possível, o futuro desempoeirado e prometedor parecia ter comprado uma estação neste país.

A celebração do 1º de Maio desse ano primeiro da revolução agregou multidões expressivas como não mais sucederia. No final deste mesmo mês de maio, é aprovado o primeiro salário mínimo em Portugal, tão generoso face à pobreza salarial instalada que espoletaria uma quase febre consumista no país, entretanto enredada num contexto de acelerada inflação. 

A revolução irrompera num tempo de míngua nacional e retração económica internacional, mormente no mundo capitalista. O colapso da arquitetura financeira desenhada pelos acordos de Bretton Woods (1944), marcado pelo fim da convertibilidade do dólar em ouro (1971) e pelo consequente termo das taxas de câmbio fixas, coligado com o recente choque petrolífero de 1973 (quando o preço do barril de petróleo se multiplicara por quatro em escassas semanas) induziu a nova realidade da “estagflação”.

No imediato pós-revolução, o MFA (Movimento das Forças Armadas) cativava a adesão popular com um ambicioso programa assente em três “D”: democratizar, descolonizar e desenvolver. 

E a mensagem era sedutora. 

O país estava cansado de uma guerra colonial que se arrastava por 13 anos, não obstante toda a exortação patriótica que a envolvia. 

O povo descobriu a liberdade e, afora alguns exageros típicos das revoluções (nos saneamentos, nas ocupações de propriedade privada,…), mostraria que a apreciava, votando massivamente nas primeiras eleições livres de 25 de abril de 1975, desprezadas pela extrema-direita, e desqualificadas como “burguesas” pela extrema-esquerda que exaltava o poder popular.

E, claro, o povo esperava que o tempo das “vacas magras” anunciado por Marcelo Caetano, numa “conversa em família” no outono de 1973, pudesse ser revertido. Afinal, agora o tempo era de sonho, de esperança, havia a promessa de um “D” de desenvolvimento.

Volvido cerca de ano e meio sobre a Revolução de Abril a descolonização estava consumada, afora o caso singular de Timor, que se estenderia até 2002. 

Em 2 de abril de 1976, depois de ultrapassar um agitado “Verão Quente” e um cerco à Assembleia Constituinte no ano precedente, o país ganhará uma ambiciosa Constituição para a democracia. 

Hoje, a democracia vacila por muitos territórios onde parecia profundamente entranhada, desde logo os EUA. A Europa que integramos (UE), a despeito da sua relativa fragilidade militar e até da perda relativa da sua importância económica no contexto mundial, e ainda apesar de movimentos autoritários que nela se insinuam, sobreleva-se e subsiste como um referencial da Liberdade no mundo. E nós, Portugal, na procura de uma rede para a liberdade e o desenvolvimento, depois de nos despedirmos de um império multissecular, foi nesta Europa, qual império benigno, que nos abrigamos, em 1986. 

Com realismo, tal como em anteriores evocações desta data maior da história pátria, temos de reconhecer que o “D” do desenvolvimento, não obstante os muitos progressos observados no meio século volvido (na saúde, na educação, nas estradas, no saneamento, …), não exala um brilho convincente. Temos muita desigualdade, salário mínimo parco face ao custo de vida, habitação própria ou arrendada de difícil acesso e uma classe média a caminhar para o estiolamento. 

Mas sobra-nos sempre a Liberdade, marca maior da dignidade humana. E hoje, 25 de Abril, cumpre-nos rememorar o quanto vale fruirmos deste privilégio.

Amadeu J. C. Sousa

Amadeu J. C. Sousa

25 abril 2026