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Santa Páscoa para todos

Estamos às portas da Páscoa; e, após uma Semana Santa de renúncia e reconciliação, momento será de renovação, de ressurreição e de aleluia interiores, mormente, de rememorar os tempos da longínqua infância que eu vivi, com páscoas tão distantes, quanto presentes que, agora, desaguam no meu cais das lembranças.

Como o mágico sortilégio da rosca de trigo, sempre tão aguardado e festejado que os padrinhos, com imenso gosto, preparavam para os afilhados; e que, grande ou pequena, conforme as suas posses, a rosca assim definia a categoria social dos padrinhos e o gozo enorme dos afilhados que a exibiam para toda a gente.

Mas, não podia deixar de ser uma rosca de trigo bonita, bem-feita, mesmo que pouco enfeitada ou singela; e porque, nesses tempos tão longínquos, comer trigo diariamente, fosse de que desenho ou categoria fosse, era um autêntico luxo para alguns afilhados com padrinhos economicamente mais abastados.

E, então, era ver e apreciar, uns tempos antes do dia de Páscoa, ao passar pelos padrinhos, a saudação obrigatória com outra força e sentido dos afilhados:

Sa bença, padrinho! Sa bença, madrinha!; e que era a forma comum e mais capaz de os afilhados se dirigirem aos padrinhos, lembrando-lhes uma ancestral obrigação e que foi assumida no ato batismal.

E os padrinhos com alguma parcimónia, mas muita estima e consignação, lá lhes estendiam a mão que os afilhados beijavam sofregamente com o devido respeito e perante a afirmação perentória padronizada:

Deus te abençoe! Deus te abençoe!

Todavia, o tão aguardado momento, já muito próximo do dia de Páscoa, finalmente chegava com a entrega cerimoniosa do dito folar, a rosca, pelo padrinho; e era, sem dúvida, bonito e protocolar tal gesto, como, de seguida, ver o afilhado todo ufano a exibi-la a toda a canalhada, vizinha e presente, pois tal trofeu era só seu e havia de durar por muito tempo.

Aleluia! Aleluia!

E a magia do compassa pela aldeia fora, em cortejo alinhado e bem composto: o rapaz da campainha, o mordomo com a cruz, o Abade, os homens da opa vermelha, os rapazes do envelope e algumas mulheres com os açafates para recolha do folar para o senhor Abade; e atrás do cortejo e à espera de um doce, de um nico de pão leve ou de um punhado de amêndoas em casas abastadas, lá vinha um rancho ruidoso e sôfrego de ganapos da aldeia.

Depois, de quando em vez, como pagamento de promessas ou simples efusão de júbilo pascal, era o ribombar assustador dos foguetes que punham na paisagem um tom de fugaz assombramento; e, então, a ganapada num correr desenfreado como loucos atrás das canas pelos lameiros fora em luta assanhada à caça do troféu!

E, quando com a noite vinha o fim da festa, as girândolas ecoavam por cômaros e vales saudando o cortejo que subia da última casa da aldeia a ser visitada até à igreja como era, então, bonito de ver a cruz bem alta nas mãos do mordomo, a campainha num soar bem forte e constante e o som dos cânticos do povo acompanhante numa aleluia viva que se espelhava nos rostos de novos e velhos.

Mas, para a canalhada a magia da Páscoa continuava ainda por mais algum tempo na rosca que a mãe guardava, carinhosamente embrulhada num fino pano de linho, a um canto do baú, para ser saboreada, com preconceito e preceito; e, então, agora em jeito de saudosa recordação, só quem viveu esta Páscoa de antigamente como eu a vivi lhe encontra a verdadeira magia porque sente e sabe que elas não acontecem mais, porque são, apenas, alçapões na memória.

Então, santa Páscoa e até de hoje a quinze.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

1 abril 2026