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Podemos ficar todos Apanhados

Há tempos, uma mãe recorreu à justiça para ser indemnizada devido ao seu filho se ter lesionado ao brincar no recreio ao jogo da apanhada. Para além do valor financeiro exigido, ainda se arrogava ao direito de proibir o jogo*.

Mais recentemente, o partido político espanhol Podemos” sugeriu proibir o futebol nas escolas por entender que este promove a desigualdade de género. Segundo estas “eminências”, o futebol é discriminatório pois o espaço onde se pratica ocupa grande parte do recreio escolar, deixando pouco para outras atividades. Este argumento, bem espremido, dá para acabar com o futebol…em todo o mundo – é só pensar no que se poderia fazer nesses espaços.

Portugal e Espanha são dos países europeus com maiores taxas de obesidade infantil e juvenil. Paradoxalmente, quer-se proibir algo que motiva milhões de crianças a mexerem-se, multiplicando-se as tentativas de limitar, condicionar ou proibir aquilo que, durante décadas, fez parte natural da infância: correr, saltar, cair, levantar, competir, perder, ganhar e, sobretudo… aprender e crescer em múltiplas valências, com tudo isto.

Como se não bastassem estes incentivos encapotados e preocupantes rumo ao sedentarismo, assistimos também, ao vivo ou nas televisões, a exemplos preocupantes falta de fair play e ética desportiva. Recentemente, jovens apanha-bolas - habitualmente atletas dos escalões de formação dos clubes - esconderam as bolas de jogo e retiraram a toalha com que o guarda-redes adversário limpava as mãos. Estas situações (algumas, cópias fiéis do recente CAN) dão-nos um sinal preocupante: ensina-se que ganhar justifica tudo, incluindo a ausência de ética, o desrespeito pelas regras e a normalização da batota.

Resumindo: retira-se o jogo do recreio por temer que a atividade física se transforme num risco jurídico; por razões ideológicas, tentamos diabolizar modalidades; ensinamos que vale tudo para vencer. Afinal, que mensagens estamos a passar às crianças e jovens?

O desporto e a atividade física servem, acima de tudo, para ajudar a formar pessoas: ensinando a respeitar regras, a lidar com a frustração, a aceitar a derrota, a valorizar o esforço, a cooperar, a competir de forma leal e a compreender que o adversário não é um inimigo, mas alguém que, gostando do mesmo jogo, nesse dia tem, apenas e só, uma camisola de cor diferente.

Combater o sedentarismo não é apenas uma questão de saúde pública, é também uma questão educativa e ética. Proteger em excesso, proibir por princípio ou normalizar comportamentos incorretos em nome do resultado é, no fundo, impedir os mais novos de terem experiências fundamentais para o seu crescimento físico e emocional.

Se queremos crianças e jovens mais saudáveis, mais resilientes e mais íntegros, talvez seja tempo de fazer exatamente o contrário do que propõem: mais, maiores e melhores recreios, mais desporto, mais jogo e… mais ética e fair-play.

Com estes (maus) exemplos, quase apetece dizer: Podemos ficar todos Apanhados.


 

*A tentativa de proibir o jogo da apanhada em escolas, motivada por acidentes, foi rejeitada pelos tribunais portugueses em finais de 2025.

Carlos Mangas

Carlos Mangas

13 fevereiro 2026