twitter

O imperativo espiritual de resistir às ideologias de extrema-direita

 


 

 


 


 

É uma iniciativa inédita aquela que no final de Janeiro e início de Fevereiro se realizará em França, na Abadia de Saint-Jacut-de-la-Mer, na Bretanha. Inédita e particularmente bem-vinda por ser potencialmente inspiradora de uma reflexão necessária e de um – mais um – incentivo à acção, também, evidentemente, entre nós. A proposta é reflectir sobre um tema apresentado sob a forma de uma pergunta: “Resistir às ideologias de extrema-direita: um imperativo espiritual?”. Não é, todavia, necessário aguardar as conclusões da 30.ª edição do Interfestival das Religiões e das Convicções para compreender que a resposta é afirmativa. Sim, as religiões, as espiritualidades e o humanismo laico devem elevar a voz contra a extrema-direita.

Organizada por associações diversas, comprometidas em edificar um mundo mais fraterno, como Coexister, Les Amis de La Vie, Le Cri, Les Poissons Roses e Démocratie & Spiritualité e pelo jornal Témoignage Chrétien, a iniciativa afirma-se claramente como uma acção contra uma extrema-direita empenhada em destruir as raízes democráticas das nossas sociedades ocidentais e a possibilidade de uma salutar vida em comum.

Como dizem os promotores do Interfestival das Religiões e das Convicções, a ascensão das ideologias de extrema-direita não corresponde apenas a um momento fugaz de flutuação política. Aquilo com que nos defrontamos “é uma ameaça directa aos próprios alicerces das nossas sociedades e à nossa humanidade partilhada”. O fenómeno, como se sabe, já não está circunscrito a um ou outro país. Impulsionada por uma forte corrente populista, “esta onda atravessa a nossa vida política muito para além dos partidos rotulados como de extrema-direita”.

As facetas que esta vaga exibe são várias e todas assaz perniciosas: “Nacionalismos identitários e agressivos, instrumentalização das religiões, nostalgias autoritárias, xenofobia institucionalizada, teorias da conspiração, revisionismo histórico, masculinismo, supremacismo, negação das alterações climáticas, aumento dos gastos militares, etc.”

Qualquer pessoa com alguma capacidade de discernimento reconhecerá o acerto da constatação subscrita pelos promotores da iniciativa a realizar na Abadia de Saint-Jacut-de-la-Mer – hoje, aliás, amplamente partilhada: “Estes fenómenos minam os princípios sobre os quais as nossas sociedades são fundadas, particularmente na área dos direitos humanos”. É por isso que, “perante isto, as tradições religiosas, sejam elas quais forem – judaísmo, cristianismo, islão, budismo, hinduísmo, sabedorias asiáticas – assim como o humanismo laico, devem convergir num ponto: a exigência absoluta do respeito pelo princípio da fraternidade e da dignidade de cada ser humano”.

É certo: “O respeito pela vida humana, a rejeição da exclusão e de todas as formas de discriminação, a busca pela paz e o apelo à justiça e à verdade são inegociáveis”. Ou seja, “resistir às ideologias de extrema-direita significa defender esse fundamento espiritual comum, contra as forças que pregam a divisão, o ódio e a lei do mais forte”.

Importa compreender que a resistência às ideologias de extrema-direita não é, como bem observam os organizadores deste encontro inspirador, “uma luta secundária”. Em boa verdade, “é um compromisso com as próprias fontes das nossas tradições espirituais e humanistas”.

Não é, pois, de estranhar que, por exemplo, três cardeais dos Estados Unidos da América, Blase Joseph Cupich, arcebispo de Chicago, Robert Walter McElroy, arcebispo de Washington, e Joseph William Tobin, arcebispo de Newark, tenham denunciado que a política externa de Donald Trump ameaça a paz mundial, conforme o 7 Margens noticiou na segunda-feira.

As consequências trágicas do primeiro ano de mandato do presidente dos Estados Unidos da América são, de resto, bastante evidentes. A Organização Não Governamental Médicos Sem Fronteiras denunciou na quarta-feira os impactos graves que as políticas trumpistas têm tido na saúde global e na ajuda humanitária.

Não nos encontramos perante um bem-vindo confronto de visões políticas, enriquecedor da democracia, quando ficamos a saber que há “três militantes do Chega entre [os] detidos por ódio a imigrantes”, como divulgou o Jornal de Notícias, também na quarta-feira.

Estes são, como sempre, tempos de “sim, sim; não, não”; tempos que impedem qualquer benefício da dúvida em relação aos pequenos epígonos trumpistas, como o candidato presidencial português de extrema-direita, chefe de um partido que apenas medra à custa de falsificar a história e de cultivar o ressentimento e o ódio, fazendo crer que isso é o bastante para resolver qualquer um dos mais severos problemas que afectam a vida dos cidadãos.

Se a pergunta sobre se resistir às ideologias de extrema-direita é um imperativo espiritual encontra rápida resposta, há perguntas que os organizadores do Interfestival das Religiões e das Convicções formulam que não podem deixar de interpelar cada um dos que julga possível uma sociedade movida pela busca do bem comum. Que fazer concretamente para lutar contra a ascensão da extrema-direita (no caso português, começa por ir votar contra ela no dia 8 de Fevereiro)? “Como passar da denúncia à acção?” “Como mobilizar os cidadãos – crentes ou não – que somos?” “Como não desesperar e manter uma alegria militante?”

Uma sinistra personagem de um cartoon de Daniella Martí, publicado no diário espanhol El País, olhando para uma planta verde que brota no planeta que ele tem na mão, verifica: “Há sempre alguém que interfere no nosso plano de destruição, semeando esperança”. É também disso que se trata. Contra a extrema-direita, impõe-se afirmar e semear esperança.


 


 

Nota: este texto foi publicado no 7 Margens na quinta-feira.

Eduardo Jorge Madureira Lopes

Eduardo Jorge Madureira Lopes

25 janeiro 2026