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Poderá o sacrário ser o melhor psiquiatra?



 



 

Encontrei, recentemente, um texto sobre a – possível, pressuposta ou audaciosa – relação entre a presença real, em mistério e espiritualmente de Jesus no sacrário e a saúde mental das pessoas, sobretudo se forem crentes.

Escrevia um autor numa publicação intitulada ‘Omnes’ de 30 de dezembro de 2025: «A saúde espiritual pertence a Deus e a saúde mental aos médicos. Embora uma vida espiritual possa contribuir para a saúde, substituir profissionais por Jesus Cristo pode indicar ignorância, falta de formação espiritual ou uma postura espiritual patológica.

Às vezes, as pessoas dizem-me que o melhor psiquiatra é o sacrário. Ao que costumo responder: sim, e também é o melhor ginecologista e o melhor traumatologista. Elas não acham graça, mas Deus acha, porque Ele é o melhor comediante.

Mas o que poderia estar oculto por trás dessa referência a Jesus como psiquiatra? Talvez seja o fato de que as pessoas procuram psiquiatras para resolver problemas que não são tanto de saúde mental, mas sim de saúde espiritual, para lidar com questões da vida que não são médicas; ou que lhes pedem para aliviar o sofrimento necessário para a experiência como seres humanos plenamente desenvolvidos. A ciência indica que uma verdadeira vida espiritual – independentemente da religião – facilita uma melhor saúde mental devido às consequências da aceitação, do desapego, da conexão consigo mesmo, da transcendência em relação à natureza e aos outros, e da capacidade de compreensão e compaixão».

1. Deus pode realizar milagres e curar qualquer doença, mas não seria recomendável ir ao médico, usando os recursos da medicina? Reconhecer a verdadeira presença de Jesus na eucaristia – em particular no sacrário – não deveria começar por não pedir por quilo que da nossa responsabilidade resolver, cuidar e curar? Não será recomendável que se dê a Deus o que é de Deus e ao médico o que é do médico? Uma pessoa com doença mental não é amada por Deus e não pode amar a Deus?

Fazendo fé no autor do texto que li e que motiva esta partilha-reflexão, há exemplos de pessoas reconhecidas como santos que tiveram problemas graves de saúde mental. «São Luís Martin (pai de Teresa de Lisieux) passou três anos num hospício; São Camilo de Lellis era viciado em jogos de azar; São Josemaría sofria de insónia; Josefina Bakhita apresentava sintomas de estresse pós-traumático devido aos abusos que sofreu; São Óscar Romero tinha transtorno obsessivo-compulsivo». Em resumo, pessoas normais como cada um de nós, que amavam a Deus, precisavam de um médico para as suas mazelas, doenças e achaques…

 

2. Um relacionamento com Deus – numa correta vivência humana esclarecida e numa fé amadurecida – pode melhorar a saúde mental?  Poderemos encontrar algumas áreas em que, um relacionamento pessoal com Deus, pode melhorar a saúde mental de cada um: 

a) Deus ama cada um de nós e não é preciso que eu faça nada para que esse amor se manifeste, basta que me deixe amar por Ele. Isso me faz viver sereno, seguro e confiante em Deus e com Ele: diante do sacrário posso e devo reconhecê-lo humildemente…

b) Os seres humanos têm qualidades, são capazes de as desenvolver e Deus quer que esses dons sejam aprimorados: não podemos ficar parados, devemos desenvolver os nossos dons. Isso se potencia diante de Jesus no sacrário, com verdade e assumindo as consequências da fé, sem medo nem falsa esperança…  

c) Cada um de nós tem limitações, não as podemos ignorar nem disfarçar. É necessário que cada um saiba cuidar de si mesmo, aprenda a controlar as suas expetativas, conheça e reconheça os seus limites e se pergunte, diante de Jesus no sacrário, como pode aprender o que é mais benéfico para si e para os outros… 

d) Somos seres em relação, a minha liberdade é ampliada, enriquecida e fortalecida pelo encontro com os outros, nas interações diárias com tantas pessoas. Não é apenas Deus que me transforma, mas a presença de Deus em cada pessoa com quem interajo me desafia a estar presente e a praticar o amor ao próximo como a mim mesmo…

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

12 janeiro 2026