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Compensa não viver dependurado no Estado?

 


 

 


Pela enésima vez somos confrontados com a discussão de sabermos se, quem não depende (ou dependeu) do Estado, isto é, quem vive da condição do seu trabalho em regime particular, pode ou tem legitimidade para assumir funções públicas…desde as autarquias até ao parlamento ou nalguma tarefa governativa ou, sendo o caso em disputa, se poderá concorrer ao cargo de mais alto dignitário da Nação.

1. A questão torna-se recorrente quando se pretende aferir quem é mais digno, melhor capaz ou até mais bem preparado: vir ou viver do trabalho que não seja remunerado – muitas das vezes dir-se-ia mais controlado – pelo Estado corre sério risco de entrar na lista suspeita ou de ser excluído de ter capacidade para servir – se estar na política (em sentido amplo do termo) assim for entendido – os outros concidadãos. Vir da vida não-pública – privada, profissionalmente ou com curriculum favorável – começa a tornar-se um labéu para a idoneidade de boa parte dos candidatos a funções públicas… mesmo que não sejam políticas.

2. Confesso com toda a honestidade que isto enoja quem não se deixa vender à estatização. Ter sucesso na vida não-pública faz escrutinar quem não alinhe nem precise de estar no role dos ‘funcionários públicos e afins’. Os setores da saúde, do ensino (que deveria ser mais do que educação), dos transportes, da segurança (policial ou social) e tantos outros serviços ditos públicos convencionou-se que deveriam ter a tutela do Estado. Ora, escapar a esse regime divide os cidadãos e cria engulhos de complexidade crescente.

3. Sobretudo quando é envolvido dinheiro – ganho na vida não-pública – tem-se tornado um foco de conflitualidade. Neste regime de julgamento social por antecipação temos visto aparecerem uns tantos saudosistas desse regime totalitário que pretende dizimar os ricos para que os pobres possam ser beneficiados. Fugir desse pensamento dominante e, sobretudo, sacudir os arreios da mediocridade tem vindo a tornar-se uma tarefa difícil de ver e de viver. Em muitos casos tal atitude tem servido de arma-de-arremesso contra adversários e concorrentes aos mesmos lugares, tendo em conta as pretensões ideológicas.   

4. Por que há medo de quem não ganha (ou ganhou) a vida sem o jugo do serviço estatal? Como podemos sobreviver com princípios de igualdade se os desafios estão infetados de preconceitos, senão mesmo de condenações à personalidade dos que vivem desenquadrados do protecionismo estatal? Com tais acertos de igualitarismo não estaremos a excluir quem não precisa das benesses estatais para servir os outros? Por quanto tempo haverá quem se submeta à máquina trituradora de só valer quem se dependura nas fimbrias do Estado?

5. O chavão de que ‘o privado é de alguns e o público (estatal) é de todos’ tem conseguido arregimentar os menos bons e excluir quem tenha iniciativa e não quem procura o lucro, como tantas vezes nos é impingido. Esta visão dialética continua a ser o modo de estar de muitos dos nossos responsáveis políticos, sindicais… numa bolha que já devia ter rebentado, ao menos pela falência declarada de múltiplos serviços públicos…

6. A menos de um mês de sermos chamados a escolher o próximo inquilino do Palácio de Belém, urge saber avaliar quem quer ver os outros valorizados pela qualidade ou analisados pela utilidade, mesmo que seja camuflada pela antiga obediência castrense ou em forma de remuneração controlada…



 

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

29 dezembro 2025