1. Donald Trump chegou a Anchorage (Alasca) em 15 de Agosto, pouco antes de o avião do seu homólogo russo, Vladimir Putin, aterrar. A base foi em tempos uma importante plataforma militar dos EUA para vigiar a União Soviética durante a Guerra Fria, e, por isso, raramente recebia visitantes não militares, quanto mais dois presidentes em exercício. A reunião durou cerca de duas horas e meia, mas sem resultados quanto à paz da Ucrânia; esta, porventura, nem terá sido a única questão do encontro de velhos amigos, após o tapete vermelho estendido pelo anfitrião ao seu convidado, vendo-se cada um ao espelho na imagem do outro – um Donald Putin e um Vladimir Trump.
No final, parece que foi Trump, e não Putin, quem cedeu! Aliás, o opositor russo Dmitry Gudkov, exilado, afirmou que esse encontro foi uma oportunidade única para Putin apertar a mão de um dos líderes do mundo ocidental, ocasião que não poderia desperdiçar: "Para Putin, o simples facto de poder encontrar-se com Trump é já uma grande vitória. Trump está, no fundo, a legitimar um criminoso de guerra e a dar-lhe o direito de participar em negociações com o Ocidente".
2. Se eles são opostos no temperamento e na táctica, estão próximos quanto aos móbeis que os movem: ambos execram Europa, mormente a União Europeia (UE), que dizem estar em declínio, movidos pelo alvoroço de a derruírem, não enxergando o que se passa nas respectivas sociedades em decadência (ou fingindo não ver); ambos detestam UE, a democracia europeia, as liberdades desfrutadas – aliciantes miragens para russos e, parcialmente, para americanos.
Aliás, "Trump aspira ser o tipo de líder que é Putin, enquanto Putin simplesmente elogia Trump por razões práticas e políticas. Putin é, de certo modo, o que Trump sonha ser", considerou há anos o então director da revista “The New Yorker”, David Remnick (durante anos correspondente na Rússia), para quem Putin "vê em Trump uma grande oportunidade" que aproveita em seu próprio benefício, explorando o seu egocentrismo e jactância.
Ora, para os seus intentos valem-se de três comparsas – Robert Fico (Eslováquia), Andrej Babiš (República Checa), Viktor Mihály Orbán (Hungria), piscando o olho a Meloni (Itália); depois há os partidos de extrema direita em vários países europeus, a subir nas sondagens – em França o ‘Rassemblement National’ (RN) de Marie le Pen, no Reino Unido o ‘Reform UK’ de Nigel Farage (prosélito do Brexit), na Alemanha ‘Alternative für Deutschland’, AfD) de Alice Weidel (imigrante mas contra imigrantes), na Holanda o Partido pela Liberdade de Geert Wilders, etc. – a quem subsidiam e adestram.
3. Ademais, nem Trump nem Putin – nem Xi – gostam da regulação da UE, sobretudo sobre empórios telemáticos e de comunicação, produtos químicos na agricultura, e outros sectores. Um quer que Europa compre energias fósseis e abdique da energia verde, o outro quer vingar-se por não vender o gás e petróleo barato, tal como Xi, a propósito de múltiplos artigos de consumo, veículos eléctricos, etc.
Para tal, desconsideram Europa. Se Trump quer o G7 sem Europa, afinal G5, o ‘Core Five’ (EUA, Rússia, Índia, China e Japão), Putin fica-lhe mui grato; ora, com o G5, Trump pensa mandar no mundo; quer aí a Índia, mas impõe-lhe pesadas tarifas, fazendo-a aproximar-se da Rússia, querendo também, por vias inoperantes, afastar a Rússia da China. Sabe-se que Trump, no passado, foi à Rússia, que o salvou de falências, com investimentos imobiliários, pelo que a ligação remonta longe no tempo. Trump quer fazer sobretudo negócios, no que se junta a Putin, como é o já falado túnel no Alasca (que já foi da Rússia).
O plano de Putin assenta numa vingança contra o Ocidente, que é o mundo construído sobre leis e consensos, para impor um mundo onde a força prevaleça, pretendendo, com Trump, recriar um concerto de grandes potências – com Moscovo, Washington e Pequim nos epicentros; para esse intento, importa antes de mais desmantelar as instituições internacionais, o que já acontece de facto com a ONU, a NATO e, tentativamente, a UE. E, de facto, aos poucos, a estrutura institucional em que crescemos, o mundo aparentemente inabalável da NATO e da UE, parecem colossos com pés de barro! Europa tem que contar com ela própria na defesa. É impressionante como pode operar-se uma brusca mutação da estratégia americana, em que Europa passou de aliada a inimiga.
4. Isto deve dar que pensar: o mundo, pela primeira vez, tem mais autocracias que democracias. O próprio Trump admitiu ser fascista, a uma questão aquando do encontro na Casa Branca com Mamdani, prefeito eleito de Nova Iorque.
E é estranho que, no mundo, as lideranças se coibam de criticar Trump. Somente o Papa Leão XIV, com intervenções ressonantes, põe em questão os planos de Trump da derrocada da NATO e das políticas contra imigrantes. E tem mais eficácia, pois é um Papa americano, que falou em inglês (e não em italiano, como é de tradição) para ser ouvido.
O autor não segue o denominado “acordo ortográfico”