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Num autocarro, em tempos natalícios

Não há muito tempo, assisti a uma conversa entre duas pessoas, de cinquenta e poucos anos de idade aproximadamente, que se sentavam no mesmo banco dum transporte público. Trocavam impressões sobre a melhor forma de passar o Natal, altura do ano que lhes proporcionava algum repouso e boa disposição. Lembravam também, com pena e alguma tristeza, que a guerra continuava a flagelar o ser humano, recordando o que se passava na Ucrânia e também em Gaza.

“Como vai passar o Natal?” Questionou um deles. O interrogado demorou a sua resposta. “Ainda não sei bem. Provavelmente, vou para um sítio pacato alguns dias... Enfim, descansar... Sair do habitual... Recompor-me para aguentar o novo ano que se avizinha”. 

“Pelo que ouvi, observou o autor da pergunta, ainda não tem bem estruturado o seu Natal...”. “Sabe, não sou homem de grandes planeamentos... Se o fosse, penso que ficaria cansado só por organizar o meu descanso... Algum improviso, sempre me sabe bem...”

“É curioso como somos diferentes. Tenho tudo perfeitamente organizado para os dias de Natal. Marquei no passado mês o quarto do hotel e, inclusivamente, já estão, na minha mão, os bilhetes para os vários espectáculos que nesse lugar se realizam por essa altura”... “Sabe, acrescentou, se eu não sei bem o que me espera... fico nervoso... Não é que eu não compreenda o improviso, como referiu há pouco o meu amigo, mas não consigo lidar com ele...”

Um rapazito, que se sentava, ao lado dum adulto, no banco da frente em relação ao que era ocupado pelos dois dialogantes, voltou-se para trás e disse ao que falara em último lugar: “Muitos parabéns! Tem tudo muito bem organizadinho... Já fez o Presépio?”

Respondeu secamente: “Não acredito em tretas...” “Tretas?, perguntou o miúdo muito surpreendido. “Sim, tretas e tretas das grandes...”. O adulto do banco da frente voltou-se para trás e observou: “Eu sou o pai deste rapaz... Em minha casa, no Natal, sempre se faz o Presépio, porque relembramos, com gosto, o nascimento de Jesus Cristo... E temos a certeza de que não se trata de “tretas... Tenha respeito pelas convicções dos outros...”

O homem levantou-se, de repente, tocou na campainha para o autocarro parar. Não disse nada, e sempre calado, aproximou-se da porta já aberta com a paragem do veículo. Ao sair, voltou-se para trás e, berrando, exclamou: “Tretas!!!...” Toda a gente, surpreendida com a sua atitude, ficou muito calada. Ele saiu e a porta fechou-se.

O interlocutor do sujeito irritado, incomodado com o sucedido, aproximou-se do lugar do pai e explicou-lhe: “Não se preocupe. Conheço este homem, sou seu amigo, e a sua vida foi profundamente difícil e complicada. É um revoltado que tem destas reações espontâneas. Falarei com ele para o acalmar. Ficou tão nervoso, que até saiu uma paragem antes da que costuma para chegar a sua casa.” E voltando-se para o pai, observou-lhe: “Tem toda a razão, mas desculpe-lhe a reacção...”

“Com certeza, respondeu-lhe. Não se preocupe... E muito obrigado”.O autocarro seguiu o seu rumo. E os ocupantes ficaram longo tempo emudecidos.

O pai e o seu filho sairam na paragem seguinte. E para todos os passageiros do autocarro, disseram: “Bom Natal para todos...” Houve um “obrigado” colectivo e também do motorista, a quem o pai, com um gesto muito característico, o saudou efusivamente.

P. Rui Rosas da Silva

P. Rui Rosas da Silva

23 dezembro 2025