O disjuntivo deste título – ‘cair em graça ou ser engraçado’ – poderá explicar o subtítulo – ‘subsídios para uma possível teologia do humor’.
Desde logo um enquadramento desta pretensa reflexão é a palestra-testemunho de Maria Rueff, no passado dia 17 de dezembro, ministrada (o termo não é exagerado) aos cerca de duzentos padres da diocese de Braga, que acorreram ao auditório Vita, na cidade arquiepiscopal para um tempo de formação e/ou de convívio em vésperas de Natal...
1. De facto, cair em graça pode ser um princípio de vir a ser engraçado. Este estado de configuração pública – ser engraçado – poderá ser mais influente do que esse de cair em graça, pois isso implica sintonia com quem nos relacionamos e, tal sinergia, tem de estar bem articulada. Quem não terá já caído em menos graça pela simples razão de que aquilo que disse não foi entendido como graça ou estado de comunicação. Por vezes, há quem caia em graça sem ser engraçado e, pelo contrário, há quem seja engraçado mesmo que aquilo que diz ou faz possa não ser interpretado como totalmente engraçado...
2. Reportando-nos à comunicação de Maria Rueff, em Braga, podemos considerar que ela colocou os comunicadores na linha de serem meios de fazer chegar uma mensagem àqueles com que interagem, tanto os humoristas, como (no caso do público presente) os padres nas ações litúrgicas. A sensibilidade a ter um dom – simples, humilde e consciente – que faz comunicação com os outros torna aqueles que o exercem a deixarem-se esvaziar de si para que Deus se comunique através deles. Foi deste modo interpelativo que a humorista nos deixou a certeza de que somos ‘usados’ por Deus para O fazermos presente, cada um a seu modo e segundo os seus dons humanos, psicológicos e espirituais...
3. Partindo do seu processo de conversão – são palavras da humorista – Maria Rueff reportou-se por diversas vezes à figura do Papa Francisco e ao encontro que ele teve com os humoristas de todo o mundo, a 14 de junho de 2024, no Vaticano.
Centremos, então, o foco na pergunta: Deus ri?
Consultamos uma publicação do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. «Várias são as passagens que nos falam de um riso/sorriso em Deus (cf. Sl 2,4; Pr 3,34; Job 9,23) ou do riso como tema teológico (cf. Gn 18,10-15; 21,1-7), ao ponto da reflexão mais especulativa (K. Rahner) sustentar dois tipos de risos (hipotéticos) de Deus: riso de alegria, enquanto satisfação por ter criado um mundo bom (cf. Gn 1,31) para as suas criaturas habitarem (riso protológico); riso de confiança, pois, estando solidário com as dificuldades do humano, Deus sabe que o seu riso será o último (cf. Sl 37,13), o riso da vitória final do bem sobre o mal (riso escatológico). E como diz a gíria popular: quem ri por último, ri melhor».
4. Outra questão: o humor é útil ou não para a espiritualidade?
De novo citando o secretariado da cultura: «Obviamente que sim. O bom humor (não o mau humor!) revela em si várias caraterísticas espirituais, das quais: a humildade, pois saber rir-se de si mesmo e dos seus próprios erros/defeitos é a prova de uma pessoa que se aceita como é (Sr 21,20); a confiança, pois, diante das adversidades preocupantes, uma dose certa de bom-humor é a forma de se relativizar esse drama, fazendo-nos ver outros valores e verdades escondidos naquela situação (Sr 30,21-25)».
5. Atendendo às implicações do bom ou do mau humor na vida, teremos de interrogar-nos se a falta de bom humor não será um obstáculo ao anúncio da Boa Nova de Jesus, Ele de quem só duas vezes se refere que chorou – no falecimento de Lázaro e diante da insensibilidade à conversão de Jerusalém. As exceções não nos falarão da normalidade do bom humor no ministério de Jesus?