Por estes dias ouvi, numa interessante entrevista televisiva a uma empresária vitivinícola de sucesso, a expressão – fugia dos desanimados – onde ela caraterizava, na sua região e num tempo bem datado, como era a vivência dos seus coetâneos, mais reivindicativos do que empenhados na construção da sociedade em que todos viviam, uns a exigir direitos e outros a trabalhar...
1. O episódio citado recorda o ambiente ao sul do Tejo na triste época dos anos oitenta do século passado, ainda antes da entrada oficial do nosso país na CEE, hoje designada União Europeia. Era o tempo das bandeiras negras às portas das empresas, das caras esfomeadas, do encerramento de empresas e dos despedimentos... à mistura com a reinação de forças (ditas) de esquerda, aproveitando mais as forças (sociais, económicas ou mesmo éticas/étnicas) para puxar-para-baixo, pois isso dava mais proveito para impingir a reivindicação e o mal-estar à custa de alguma ignorância e da razoável manipulação. Foi assim que foram reinando décadas continuadas em autarquias, elegendo representantes-cassete e até parecendo democratas em vias de extinção… É dessa época a afirmação social e eclesial do então Bispo de Setúbal, D. Manuel Martins.
2. A senhora supra citada surgiria aos olhos de tais forças como ‘capitalista’, pois ia ganhando terreno – literalmente com propriedades em expansão – e fazendo crescer o negócio, ao que parece, sem se deixar impressionar por esses ‘desanimados’ em manifestações reivindicativas, embora progressivamente empobrecidos e mais azedos... Para quem viveu nesse ambiente alguns anos passados sobre a recordação de tal empresária – quase três décadas, incluindo a transição de milénio – posso conferir que era ousado e quase perigoso fugir da melancolia de tal ‘esquerda’, mais afeiçoada ao conformismo do que à iniciativa (privada ou associativa), mais dependente do subsídio do que da comparticipação complementar do Estado ou da autarquia... Pior era concluir que a cor-do-cartão-partidário era, na maior parte das vezes, o critério para receber migalhas que deveriam ser a justa recompensa do mérito sem olhar à fação ou ideologia...
3. Aquilo que mais me doía era serem equiparadas as paróquias e o trabalho supletivo que praticavam – nos centros paroquiais ou em grupos de ajuda aos mais frágeis da sociedade – com outros grupelhos – o termo é quase ofensivo, mas é usado com propriedade – de esquina que ganhavam chorudos subsídios porque tinham nas suas fileiras militantes e votantes da cor reinante nas autarquias. Ainda mais provocatório era sentir que ‘associações’ que não passavam de correia de transmissão de certas ideologias ganhavam impacto em detrimento de entidades com séculos com história firmada no passado e, sobretudo, com trabalho profícuo no presente...
4. Parece que se estreita a lista do que estão disponíveis para estarem ao serviço dos outros, tendo-os em conta e não se colocando em autopromoção. Sem desprimor pela geração caraterizada como ‘a melhor preparada técnica e intelectualmente’ nota-se que o serviço altruísta tem vindo em queda livre, muitos lutam mais pelo seu sucesso, mas parecem esquecer-se de que são resultado do investimento de muitos outros, seja dos pais, seja do país, tanto na elevação cultural, quanto na gestação dos recursos humanos... Não admira, por isso, que emerjam alguns dos menos bons para ocuparem os lugares que já foram geridos por outros melhores. Será que não merecemos que os bons nos governem com sabedoria e qualidade? Por este caminho será mais fácil surgir, mesmo que camufladamente, a corrupção, o suborno e a incompetência. Isso certamente não o queremos, mas o espaço está aberto…
5. Em breve seremos chamados a escolher – em menos de dois anos pela quarta vez e ainda faltará mais outra – quem consideramos que tem condições para decidir o nosso futuro coletivo. Por muito mal que consideremos este exercício democrático de votar, ele é dos mais simples e comprometedores. As disputas eleitorais são para escolher os melhores, mas serão mesmo? São para definir projetos, mas são seremos para resolver questiúnculas fulanizadas? Dos desanimados, libera nos, domine!