Sempre me recordo, com bom humor, uma história que me contaram, passada numa família cristã, onde o mês que actualmente vivemos, mês de Maria, era alvo de observações e de raciocínios dos vários filhos dum casal generoso, que tinha uma prole bastante alargada de descendentes.
Mais ou menos eram todos de idades próximas. Assim, entre o mais velho e o mais novo – ambos rapazes – havia uma diferença de sete anos, já que o primeiro chegara aos dez e o segundo acabara de festejar os três.
De acordo com as determinações dos progenitores, rezava-se neste mês, todos os dias, o terço em honra de Nossa Senhora. Com as seguintes orientações: os que já tinham cumprido sete anos, acompanhavam os pais desde o princípio ao fim, onde se incluia a Ladainha Lauretana. Os mais novos, isto é, os que ainda não tinham chegado a essa idade, acompanhavam a família durante o primeiro mistério, retirando-se calmamente no seu final.
Calmamente, escrevemos... Mas seria mais correcto dizer que havia bastantes discussões entre os descendentes, porque que se os que não tinham ainda os sete anos se sentiam como que menosprezados por não rezarem todo o terço, pedindo em vão aos pais que o deixassem ficar até ao final, os mais velhos como que desejavam voltar aos seis anos, para poderem brincar no final do primeiro mistério.
O José, com os seus quatro anos, era imaginativo, pedindo à mãe que o deixasse rezar ao seu colo o mistério que lhe competia. No entanto, a partir da sétima Ave-Maria, fatalmente, adormecia e assim se mantinha no regaço materno até ao final. Durou várias vezes esta situação, até que o pai descobriu que o seu sono era uma artimanha bem congeminada, pelo que na vez seguinte o obrigou a sair conforme estava determinado.
Já a Joana, com os seus oito anos, tinha com frequência necessidade de abandonar a sala ao fim do terceiro mistério. Os pais não a contrariavam, mas quando, de certa vez, descobriram que o destino daquelas saídas era um programa de televisão que ela muito apreciava - o seu entusiasmo pelo que via no ecrã foi tão forte, que, numa noite, aumentou o som dum modo desmedido, e a reza do terço teve de ser interrompida. A mãe, além de a recriminar, lembrou-lhe que já tinha idade para rezar o terço completo em família, pelo que não devia abandonar mais a sala.
Enfim, o António, que celebrara, há alguns dias, o seu sexto aniversário, sentiu-se um pouco humilhado quando a mãe lhe comentou que no mês de Maio Nossa Senhora fazia anos todos os dias, pelo que se devia dar-lhe uma prenda quotidiana. Achou que havia uma desproporção exagerada. Afinal, ele só podia festejar o seu aniversário num dia por ano. Parecia-lhe injusto tanta festa. A mãe, sem o repreender, lembrou-lhe que a Santíssima Virgem merecia tantos dias de aniversário, porque era mãe de todos os homens.
Esta observação não o convenceu. Mas a Joana, que ouvira o que a mãe observara sobre o mês de Maio e o aniversário sucessivo de Nossa Senhora, comentou com decisão: “O que a mãe diz tem toda a razão. Imagina que só havia um dia para dar os parabéns à Mãe de Jesus. Com todos os seus filhos a telefonar-lhe, os telefones do Céu entupiam-se!”
O rapaz compreendeu a observação da irmã. Ficou quase convencido. Mas acrescentou: “De qualquer maneira, os telefones do céu devem ser muito mais fortes do que os que usamos cá em baixo...” Era assim o mês de Maio nessa família cristã numerosa…