O Santuário de São Bento da Porta Aberta acolheu, esta quinta-feira, uma multidão de peregrinos na segunda grande romaria do ano dedicada ao patrono da Europa.
A Eucaristia solene e a procissão foram presididas pelo bispo auxiliar de Braga, D. Nélio Pita, que convidou os fiéis a redescobrirem um modo de viver mais equilibrado e comprometido com a fé, à luz da vida e da regra de São Bento, “Ora e Trabalha”.
Na homilia, o prelado apresentou o discernimento, a visão e a organização como três características da experiência de São Bento que podem ser motivo de inspiração para os cristãos.
Referindo-se à primeira característica, D. Nélio Pita recordou que São Bento, nascido numa família nobre, abandonou os estudos e a vida confortável em Roma depois de se confrontar com um ambiente que considerava moralmente decadente, enveredando por uma vida de eremita.
A decisão de Bento, observou, é um exemplo da importância do discernimento perante as escolhas da vida.
«Como São Bento, o nosso discernimento deve ser orientado, tendo como propósito o seguimento de Jesus. Por isso, não façamos concessões ao mal, não pactuemos com esquemas que corrompem, não alimentemos projetos de glória meramente mundana à busca do sacrifício de outros irmãos e da exploração dos recursos naturais. Como São Bento, não tenhamos medo de tomar decisões em conformidade com a vontade de Deus, mesmo que sejam decisões contra a corrente», exortou.
Superar a visão meramente individualista
D. Nélio referiu-se depois à visão de São Bento, que foi capaz de olhar para o futuro, atrair discípulos e fundar comunidades monásticas, surgindo, assim, a comunidade beneditina que moldou a história do Ocidente.
Passados 15 séculos, disse, a sua regra, “Ora e Trabalha”, continua a inspirar centenas e milhares de homens e mulheres em todo o mundo.
«Precisamos de alimentar este sentido de família, da pertença a um corpo, que está muito para além dos nossos caprichos pessoais, que tantas vezes semeiam divisões», afirmou.
Perante uma sociedade marcada pelo individualismo, D. Nélio Pita defendeu a necessidade de recuperar o sentido comunitário e de caminhar em conjunto enquanto Igreja.
«Precisamos de superar a visão meramente individualista», reforçou, defendendo uma «Igreja peregrina tendo São Bento como referência» e comprometida na «construção de uma sociedade mais justa e mais fraterna».
«Juntos, podemos fazer muito mais», acrescentou.
Referindo-se à terceira característica - organização, o prelado notou que hoje precisamos de um modelo de equilíbrio entre oração, trabalho, estudo, atividade física e descanso.
Segundo D. Nélio, esta proposta de São Bento continua atual, numa sociedade onde tantas pessoas enfrentam dificuldades em conciliar as diferentes dimensões da vida.
«Através do trabalho físico e de uma alimentação moderada, a regra contém um conjunto de preceitos práticos destinados a equilibrar momentos de oração, trabalho intelectual e corporal sem desvalorizar o tempo de descanso», notou.
Segundo o prelado, a causa de muito sofrimento no corpo e na mente tem como origem a incapacidade de conjugar harmoniosamente as diferentes áreas da nossa vida.
A vida familiar, profissional, espiritual e relacional, explicou, pode entrar em conflito quando uma dimensão acaba por anular as restantes.
«O modelo organizativo [preconizado por São Bento] deu muitos e bons frutos e hoje precisamos recuperar este equilíbrio. Precisamos de vidas muito mais equilibradas», defendeu,
A celebração, solenizada pelo coro de São Bento, contou com a participação de representantes de autoridades civis e militares, entre os quais a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, o presidente da Câmara Municipal de Terras de Bouro, o presidente da Assembleia Municipal, o deputado Carlos Cação (PSD), o presidente da Cruz Vermelha de Rio Caldo, além de representantes da Irmandade de São Bento, sacerdotes, diáconos e seminaristas.