O leitor já sabe, desde a passada semana, que, nos dias 24, 25 e 26 do mês de abril, liderei um grupo de sessenta pessoas, num passeio-peregrinação a Nossa Senhora de Covadonga, nas Astúrias (Espanha). Visitámos diversos lugares de rara beleza e carregados de história, a que agora nos referimos.
Começámos pelo Lago de Sanábria, na província de Zamora. Com uma superfície de 3, 6 Km2, é o maior lago glaciar da Península Ibérica. Alimentado pelo rio Tera, subafluente do Douro, por ali passam férias muitos zamoranos, galegos e também alguns portugueses da região de Trás-os-Montes.
Daí seguimos para Léon, onde visitámos a Catedral, cuja construção se iniciou em 1205 e se concluiu em 1302. É uma das grandes obras da arquitetura gótica, de influência francesa. Conhecida como Pulchra Leonina (“a bela leonesa”), muito contribuem para isso os 1800 m2 de vitrais que a integram. O seu organista titular, Carlos Bollo, que esteve em Prado no passado dia 19 de abril, num dos concertos do Festival Internacional de Órgão de Braga, orientou-nos na visita e demonstrou-nos as capacidades do seu grandioso órgão de tubos, aí instalado em 2013 e considerado um dos maiores e melhores da Península Ibérica. Localizado sobre o coro histórico, este órgão foi construído pela prestigiada empresa alemã Klais Orgelbau, possui 4344 tubos, 63 registos e cinco teclados.
A paragem seguinte foi em Riaño, ainda na província de Léon, zona conhecida como os “Fiordes Leoneses”, pelas suas paisagens de águas calmas rodeadas por montanhas de calcário. Construída no rio Esla e finalizada em 1987, a albufeira, que submergiu a antiga vila, é um lugar fabuloso para atividades náuticas, caminhadas e fotografias, com o Pico Gilbo a destacar-se na paisagem.
Por uma estrada sinuosa, onde o deslumbramento das paisagens contrasta sempre com o lado tremendo das montanhas escarpadas e das ribanceiras afuniladas, depois de voltas e mais voltas, curvas e mais curvas, chegámos a Cangas de Onís, a primitiva capital do reino das Astúrias. Foi aí que, no Hotel Águila Real, jantámos e nos acomodámos.
O dia seguinte amanheceu radiante, coisa rara por aqueles lados. Já em Covadonga, depois de uma foto de conjunto, subimos, de imediato, aos Lagos glaciares Enol e Ercina, situados a mais de 1000 metros de altitude, e por aí nos detivemos em contemplação. Quando descemos, atravessámos um túnel escavado na rocha e, na Sacra Cueva, visitámos “La Santina” (A Santinha), assim carinhosamente designada pelos asturianos. A seguir, dirigimo-nos para a basílica cuja construção se iniciou em 1877, vindo a ser benzida e inaugurada a 7 de setembro de 1901. Feita de pedra rosa e marmórea retirada das próprias montanhas de Covadonga, é uma construção elegante, de estilo neo-românico. E tudo isto sob o olhar atento de Pelayo que, do seu túmulo, na Sacra Cueva, e da sua estátua, junto ao santuário, lembra aos passantes que, ali, em 722, venceu o exército do califado Omíada e deu início à Reconquista Cristã.
Da parte da tarde, deslocámo-nos a Potes, uma bonita localidade do Parque Natural dos Picos da Europa, para uma visita ao seu belíssimo centro histórico medieval. Entre passeio, visita e compras, decorreu a tarde do dia 25 de abril, na liberdade de quem não tinha outro compromisso senão o de passear, repousando o corpo e o espírito.
O dia seguinte começou com uma breve visita à limpa, bela e elegante capital das Astúrias, a cidade de Oviedo, famosa pelo sudário1 e pelo retábulo da sua Catedral, dedicada a S. Salvador. Por ser Domingo, aí que participámos na Eucaristia. A propósito, lembrei-me de um dia ter ouvido este provérbio: “Quien va a Santiago y no al Salvador, visita al criado y deja al Señor” (“Quem vai a Santiago e não vai ao Salvador, visita o servo e deixa o Senhor”)2.
Logo de seguida, fomos para Cudillero, junto ao Cantábrico e ainda na província das Astúrias. Foi aí que almoçamos e daí nos fizemos à estrada em direção à Coruña, derivando depois para Compostela. A paragem impunha-se para uma breve visita à imponente Catedral, dedicada a Santiago e lugar de peregrinação, e para a compra de algumas recordações.
A experiência foi fantástica, aos mais diversos níveis: a beleza dos lugares e do património edificado, a história de cada uma das terras visitadas e o sabor das iguarias gastronómicas; a espiritualidade promovida pelo caminho e encontrada em cada um dos lugares; a convivência sadia e respeitadora entre nós. Tudo isto conferiu a este passeio-peregrinação um encanto difícil de igualar. Não há, humanamente falando, experiências plenas, mas esta andou lá perto.
1 Trata-se de um tecido de linho com cerca de 84x53 cm, guardado na Câmara Santa da referida Catedral. Segundo a tradição cristã, teria sido colocado sobre o rosto de Jesus imediatamente após a morte, antes do corpo ser envolvido no lençol funerário. O termo “sudário” vem do latim sudarium, um pano usado, em vida, para limpar o suor e, na morte, para cobrir a cabeça.
2 Este ditado terá surgido na Idade Média para incentivar os peregrinos do Caminho de Santiago a fazerem o desvio até Oviedo, porque ali se encontravam relíquias extraordinariamente importantes, como é o caso do Sudário. A testemunhá-lo está o Caminho Primitivo que liga Oviedo a Santiago e é percorrido por muitos peregrinos, após a visita à câmara das relíquias da catedral ovetense.