Há coisas na linguagem corrente que me deixam algo perturbado: essa de considerar ‘trabalhador’ só (ou essencialmente) quem usa a força física para entrar em tal categoria sociocultural. Isso se percebe de forma quase atroz aquando da celebração do dia ‘1.º de maio’ como o dia do trabalhador. De facto, certos conceitos estão como que eivados de mentalidade dialético-marxista, desde a formulação até à prossecução das tarefas sociais mais elementares. Urge, por isso, corrigir os conceitos e, sobretudo, colocar-se em conformidade com o valor/valorização do próprio trabalho.
1. Mesmo sem pretendermos envernizar de cristianismo o trabalho, este é, de per si, um valor humano e um atributo de humanização. Com efeito, o recurso ao não-trabalho – sobretudo no contraste com a preguiça ou ao menos um certo sucesso fora do mundo do trabalho – parece ser para muitas pessoas algo a cultivar e quase a preferir à ação de contributo com a obra criadora de Deus.
Se consultarmos o Catecismo da Igreja Católica poderemos encontrar não só a exaltação do trabalho, mas a necessidade de ser trabalhador. O trabalho, segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC 2427-2428), não é um castigo, mas uma colaboração com Deus na criação, sendo um dever de honrar os dons recebidos e de sustentar a família. Santificador e redentor, o trabalho bem realizado, unido ao sacrifício de Cristo, é um meio de santificação pessoal e de serviço à comunidade. O trabalho é um dever – ‘Quem não quer trabalhar, também não deve comer’ (2 Ts 3,10) – que honra os talentos e colabora na obra de redenção, unindo o esforço humano ao trabalho de Jesus em Nazaré e ao longo de toda a sua vida em condição terrena. O trabalho humano provém de pessoas criadas à imagem de Deus, visando o aperfeiçoamento da criação. Deve ser realizado com competência e amor, servindo a Deus e aos outros. O trabalho é um meio de santificação, tanto o trabalho profissional como o do lar ou de outra tarefa vivida com dignidade. O trabalho deve ser justo, permitindo ao homem sustentar-se e servir à comunidade. O CIC 2434 aborda a dignidade do trabalhador, rejeitando a escravização e valorizando o descanso necessário (terceiro mandamento). Na leitura que a Igreja faz do trabalho humano, este não é apenas uma necessidade económica, mas uma vocação para a construção do Reino de Deus... hoje.
2. Um pequeno erro que atingiu este tema foi quando quiseram fazer crer que só o trabalho que envolva esforço físico se poderá considerar o executante trabalhador. Pior ainda quando se faz pensar que tudo isso provoca exploração, cria mais-valias ou que faz uns enriquecerem à custa do trabalho de outros. Não será trabalho tanto ou mais árduo esse de saber gerir uma empresa para que outros tenham meios de subsistência, pelo auferir de um salário? Será menos trabalhador quem pensa do que quem executa? Que responsabilidade se deve aduzir a quem tem de saber gerar para depois gerir os meios daqueles que estão – para mal ou para bem – ao seu cuidado? Não terá sido de forma capciosa que se fez a mudança, nos tempos mais recentes, de ‘trabalhador’ para ‘funcionário’ e/ou ‘colaborador’ com que certas entidades têm vindo agora a rotular quem gera riqueza na produção? Isso trouxe benefícios ou camuflou responsabilidades?
3. Eis, então, porque me sinto e sou de corpo inteiro trabalhador. Quanto trabalho realizado sem ter recebido qualquer paga nem remuneração. Quantas horas passadas a estudar para compreender um tanto melhor os mistérios de Deus e da vida, isso nunca terá preço. Quanto tempo dedicado a escutar pessoas e isso nunca tem capacidade de ser agradecido de forma material. Em quantas circunstâncias há coisas que nos fazem reconhecer que é trabalhando de forma gratuita que nos realizamos como pessoas e como cristãos, seja qual a vocação em que estamos comprometidos.
4. Além do ‘homo faber’ e do ‘homo sapiens’ (homem que faz e homem que pensa) não podemos esquecer a dimensão do homem espiritual, que informa e capacita estas outras duas dimensões...