No início do novo milénio, o Papa João Paulo II escreveu, a 06-01-2000, uma Carta Apostólica na qual afirma que “se abre uma nova etapa para a Igreja no seu caminho”. Mais tarde, o Papa Francisco viria a escrever a Exortação Apostólica A Alegria do Evangelho (Evangelii Gaudium), onde sublinha a urgência de promover uma “pastoral em conversão”, concretizada naquilo a que chamou “uma renovação eclesial inadiável”.
O Papa Bento XVI, por ocasião da Visita Pastoral a Portugal, no encontro que teve com o mundo da cultura, no Centro Cultural de Belém (12-05-2010), recordou que “foi para pôr o mundo moderno em contacto com as energias vivificadoras e perenes do Evangelho (João XXIII) que se fez o Concílio Vaticano II”. Foi nesse encontro que, falando da “crise da verdade”, recordou que a Igreja deve estar sempre ao serviço da verdade como algo “irrenunciável” e pediu aos presentes e ao mundo católico: “fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza”.
É neste contexto de mudança de época, e não apenas de época de mudanças, que o Papa Francisco recordou e desafiou a Igreja a tomar consciência de que ela é, constitutivamente, sinodal. Urgia ultrapassar os tempos de uma organização piramidal para caminhar com todos, numa vivência de comunhão, em que cada um interprete a missão que lhe é confiada pela dignidade batismal. Todos, todos em comunhão e corresponsáveis pela única missão da Igreja.
Com esta “novidade sinodal”, muitos poderão votar ao esquecimento o dom da doutrina conciliar. Já passou o tempo daqueles que sonhavam com um novo concílio. O Papa Francisco não deixa margem para dúvidas: é imperativo fazer uma “revisitação dos documentos do Vaticano II durante o ano de 2024, de modo a centralizar o encerramento da Segunda Sessão do Sínodo” na celebração dos sessenta anos do Concílio.
É significativo e programático que o Cardeal Grech, Secretário-Geral do Sínodo, na apresentação do Documento Final, ao qual o Papa Francisco conferiu estatuto de doutrina do magistério, tenha afirmado com clareza que “o Concílio continua”.
Sabemos, agora, que o Papa Leão XIV afirmou que, com o Concílio, “a Igreja abriu-se ao mundo”, e que este continua a ser um caminho atual para “abraçar as mudanças e os desafios da era moderna, através do diálogo e da corresponsabilidade”. Foi assim que, no dia 7 de janeiro, iniciou “um novo ciclo de catequeses dedicado ao Concílio Vaticano II e à releitura dos seus documentos. Esta é uma preciosa oportunidade para redescobrir a beleza e a importância deste acontecimento eclesial”. Concluiu a primeira catequese afirmando que, “ao aproximarmo-nos dos documentos do Concílio Vaticano II e ao redescobrirmos a sua profecia e atualidade, acolhemos a rica tradição da vida da Igreja e, ao mesmo tempo, interrogamos o presente e renovamos a alegria de ir ao encontro do mundo para levar o Evangelho do Reino de Deus, um reino de amor, de justiça e de paz”.
Teremos, deste modo, o Papa a peregrinar com os documentos do Concílio, despertando as comunidades para a perenidade da sua doutrina. O mundo moderno acredita na pressa e vive sempre à procura de novidades. O que hoje tem valor, amanhã é descartado. A história dos concílios mostra o contrário: foram necessárias décadas, ou mesmo séculos, para revelar a profundidade dos seus conteúdos. Os séculos passam, mas a sua doutrina permanece como guia. Por isso, não nos devemos envergonhar de regressar aos documentos conciliares. São referências seguras que ainda não esgotaram a sua vitalidade.
Nos tempos que correm, perante esta época de crises, há uma palavra que deve ser assumida e vivida: fidelidade. Não somos meramente tradicionalistas; somos fiéis àquilo que o Espírito Santo suscitou e que continua a encerrar novidade, talvez com novas interpelações.
O Papa Leão XIV, para celebrar os sessenta anos dos dois documentos conciliares relacionados com o sacerdócio e a sua formação (Presbyterorum Ordinis e Optatam Totius), ofereceu à Igreja (08-12-25) uma Carta Apostólica cujo título é, por si só, eloquente: Uma fidelidade que gera futuro. Andamos à procura do que consideramos mais moderno, mas o essencial é ser fiel, abrindo-se sempre às novidades do Espírito, na certeza de que só esta fidelidade gera futuro. Temos uma bússola. Com o Papa Leão XIV, revisitemos os Documentos Conciliares.