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Projetos de investigadora de Viana do Castelo dão voz à história de pessoas comuns

Projetos de investigadora de Viana do Castelo dão voz à história de pessoas comuns
Fotografia DR

Agência Lusa

Agência noticiosa

Publicado em 29 de junho de 2026, às 14:20

Para Fabíola Pires, esta troca de conhecimentos tornou-se também uma ferramenta importante para a própria investigação.

O trabalho de formiguinha de Fabíola Pires começou há 12 anos quando, no decurso do seu percurso académico, começou a resgatar a história das pessoas comuns de freguesias de Viana do Castelo que ganharam vida nas redes sociais.

Nas duas páginas que criou numa rede social, com mais de 1.200 seguidores, publica “documentos paroquiais, escrituras, notícias antigas, plantas de edifícios, fotografias e outros registos históricos” de Meadela e do Lugar de Portuzelo.

“Há histórias que nunca chegaram aos livros, mas continuam vivas nos arquivos e na memória de quem as ouviu contar”, contou à agência Lusa Fabíola Pires, a arquiteta especialista em História do Património que está a concluir doutoramento.

Em causa estão os projetos criados, em 2012, "Meadela Histórica", título do livro do medievalista Almeida Fernandes, e o “Lugar de Portuzelo”, que é dividido pelas freguesias de Meadela e Santa Marta de Portuzelo.

“A História não pertence apenas aos reis, aos governantes ou às grandes figuras nacionais. Também se escreve com a vida das pessoas comuns, cujas experiências ajudam a compreender a identidade de uma terra e de uma comunidade”, sustentou.

A ideia de “discutir, trocar ideias e recordar o passado recente e longínquo” da freguesia da Meadela e do Lugar de Portuzelo surgiu numa fase de transição da sua vida académica.

Depois de concluir o curso de Arquitetura, prosseguiu os estudos numa pós-graduação em História e Património, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. A dissertação de mestrado, dedicada à Casa de Paredes, despertou-lhe o interesse pela história local e levou-a a aprofundar o estudo da propriedade rural, da utilização da água, dos moinhos e da organização do território da Meadela no século XIX.

 À medida que a investigação avançava, Fabíola Pires percebeu que “o conhecimento produzido não devia ficar limitado ao meio académico” e assim nasceu o grupo de Facebook Meadela Histórica, mais tarde complementado por outro dedicado especificamente a Portuzelo.

“Cada publicação é acompanhada de uma explicação que traduz a linguagem dos documentos antigos e contextualiza os acontecimentos para que qualquer pessoa possa compreender a sua importância”, disse.

Para a arquiteta, estas coisas não podem ficar só na academia. As pessoas do próprio lugar devem ter acesso ao que existe, porque nem toda a gente vai aos arquivos ler documentos antigos.

Fabíola publica documentos paroquiais, escrituras notariais, notícias antigas, fotografias, plantas de edifícios e curiosidades históricas. Antes de cada publicação, interpreta documentos escritos numa linguagem muitas vezes difícil e contextualiza os acontecimentos para que qualquer pessoa consiga compreender o seu significado.

Mais do que divulgar informação, sublinhou, “o projeto procura aproximar a população da sua própria história e estimular o diálogo entre investigação e comunidade”.

“Muitas vezes, as publicações despertam recordações familiares e dão origem à partilha de testemunhos que não constam de qualquer arquivo. Foi isso que aconteceu, por exemplo, quando divulguei notícias relacionadas com a tentativa de restauração da monarquia. Descendentes de algumas das pessoas mencionadas reconheceram familiares, partilharam histórias transmitidas entre gerações e acrescentaram pormenores que ajudam a compreender melhor o contexto da época”, contou.

Para Fabíola Pires, esta troca de conhecimentos tornou-se também uma ferramenta importante para a própria investigação.

Enquanto desenvolve o doutoramento em História, Fabíola Pires continua a consultar arquivos e a cruzar documentação histórica, mas reconhece que muitas respostas surgem precisamente através da memória coletiva da população.

Embora a investigação esteja centrada sobretudo no século XIX e no início do século XX, a curiosidade leva-a, por vezes, a explorar outros períodos.

Foi o caso da recente descoberta da planta da antiga Casa do Povo da Meadela, datada da década de 1960, onde identificou o arquiteto responsável pelo projeto e reuniu informação sobre a construção do edifício, contextualizando uma fase importante da evolução urbanística da freguesia”.

Para a investigadora, conhecer o passado é também uma forma de valorizar o presente.

Segundo Fabíola Pires, de 42 anos e que nasceu e continua a viver na Meadela, conhecer o passado é essencial para compreender a evolução do território.

“Numa localidade que cresceu rapidamente e recebeu muitos novos habitantes ao longo das últimas décadas, a identidade também se constrói através da memória. Há muitas pessoas que vêm viver para a Meadela e não conhecem a sua história. O conhecimento ajuda-as a valorizar o lugar onde e até a serem cidadãos mais interventivos”, frisou.

O objetivo passa “por aproximar as pessoas do lugar onde vivem, dando-lhes a conhecer quem ali viveu antes delas, como era o quotidiano das famílias, quais eram as dificuldades e de que forma a comunidade foi evoluindo ao longo do tempo”.

No futuro, além de concluir o doutoramento, Fabíola Oliveira pretende continuar a dinamizar iniciativas de divulgação histórica e promover a recolha de testemunhos orais dos habitantes mais antigos, preservando memórias que ainda sobrevivem na voz de quem as viveu.