Que histórias cabem à volta de uma mesa? A crónica de hoje pareceu-me daquelas que nos abrem o apetite antes de nos puxarem pelo pensamento. Juntar gastronomia e Filosofia pode parecer estranho, mas talvez não seja assim tanto. Há uma velha máxima latina que diz Primum vivere, deinde philosophari, primeiro viver, depois filosofar, tradicionalmente atribuída a Thomas Hobbes, e talvez ela nos lembre que viver também passa por prazeres simples, como o de comer e partilhar uma boa mesa.
Caros leitores, as férias convidam-nos a regressar às nossas terras, às festas e romarias, aos festivais do marisco, da sardinha, do polvo ou do bacalhau, e a visitar familiares. Lembro-me bem de como, na casa dos meus avós, o bolinho de bacalhau, a patanisca e o bacalhau frito eram sempre motivo para um verdadeiro ajuntamento familiar. Bastava haver mesa posta para aparecerem as pessoas, começarem as conversas e ficarmos por ali sem dar conta do tempo passar.
Ora, é precisamente aqui que a gastronomia começa a aproximar-se da Filosofia. Os gregos perceberam cedo que era também à mesa que se conversava. No symposion, depois da refeição, ouviam-se poemas, música e trocavam-se ideias. Dionísio, deus da celebração, andava simbolicamente por perto, e o banquete tornava-se também um lugar de encontro e reflexão.
É a partir desta ideia de que a mesa é lugar de conversa que Platão escreveu um dos seus muitos diálogos, O Banquete. Sócrates, Agatão, Aristófanes e outros convidados reúnem-se e escolhem o amor como tema de debate, quase ao estilo dos atuais cafés filosóficos. Cada um apresenta a sua visão, escuta, argumenta e discorda. Mas à mesa também se falava de educação, virtude, justiça, política e de assuntos importantes para a cidade. A democracia fazia-se na Assembleia, naturalmente, mas a cultura do diálogo e da argumentação também crescia nestes encontros. Um dos grandes textos da Filosofia ocidental acontece, afinal, à mesa, entre ideias, palavras e diálogo.
Também Epicuro dava valor aos prazeres da comida, embora não os confundisse com excesso. Para ele, mesmo um alimento simples podia proporcionar grande prazer quando respondia às nossas necessidades. E Séneca recuperou uma ideia de Epicuro que continua atual: “Devemos pensar primeiro com quem vamos comer e beber, mais do que no que vamos comer e beber.” Há pratos excelentes que se esquecem e refeições simples que ficam para sempre por quem estava connosco.
Meus amigos leitores, todos nos lembramos do famoso e malogrado chef, escritor e viajante Anthony Bourdain, que percorreu o mundo mostrando que conhecer a comida de um povo era também conhecer melhor as suas pessoas. Dizia que “as refeições fazem a sociedade, mantêm o tecido unido de muitas maneiras”. E viajar também é descobrir culturas através da mesa, seja perante uma paella em Espanha, uma pizza em Itália, uma salsicha na Alemanha, uns tacos no México ou uma feijoada no Brasil. Cada povo conta uma parte da sua história através daquilo que come.
Por outro lado, também gosto da mesa do café, sobretudo agora que a bola do campeonato nacional voltou a rolar. Gosto de ver alguns jogos no café, pelo futebol, mas também pela conversa com os meus amigos. Confesso que me divirto a apanhar algumas falácias nos argumentos sobre um fora de jogo, uma substituição ou uma decisão do árbitro. No fim, ninguém convence ninguém, mas a conversa aconteceu e continua.
Talvez seja por isso que a mesa ocupa um lugar tão especial nas nossas vidas. Nela cabem a memória, o prazer, a discussão, o riso, a cultura e até a Filosofia. Podem mudar os pratos e mudar os tempos, mas permanece essa vontade antiga de nos sentarmos e conversarmos.
Meus amigos leitores, por hoje ficamos por aqui. Fica mais uma frase nossa e o convite para, na próxima refeição, saborearmos também uma boa conversa.
“À mesa, os sabores ficam na memória, mas é o que partilhamos que permanece.”