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Portugal: entre o real que importa e o surreal catártico

O povo, o país que se entusiasma com a bola foi há dias forçado a render-se à realidade, a abandonar projetos fantasiosos de uma vitória num mundial de futebol, no qual a seleção nacional da modalidade se apresentou sem brilho. 

Portugal, um país pequeno que tem oscilado, numa espécie de perfil bipolar, entre a autocomiseração e a infundada, arrojada e desmedida, aura de grandeza.

Ao tempo da 1.ª Guerra Mundial, Almada Negreiros, iconoclasta, no seu entretanto afamado Manifesto anti-Dantas (“Manifesto Anti-Dantas E Por Extenso”, no título original) para lá de desancar em Júlio Dantas, figura pública com aspirações literárias que Almada desdenhava, deplora também o país em que vive. Não obstante as suas raízes também africanas, impiedoso, Almada atira no “Manifesto” que Portugal que com todos estes senhores (Júlio Dantas e outras figuras afins com projeção e poder à época) conseguiu a classificação do país mais atrasado da Europa e de todo o mundo! O país mais selvagem de todas as Áfricas! (…) Todavia, Almada concede alguma esperança quando diz que Portugal inteiro há de abrir os olhos um dia - se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!

Durante o Estado Novo, genericamente envolvidas numa pobreza que condoía, as crianças portuguesas eram alertadas na escola primária para a grandeza do país que integravam. Tínhamos antepassados heroicos e desprendidos que haviam forjado a singular grandeza do país: Afonso Henriques, o fundador da nacionalidade; Nuno Álvares Pereira, vencedor na batalha de Aljubarrota; os temerários navegadores e “descobridores” Bartolomeu Dias, Pedro Álvares Cabral ou Vasco da Gama; e ainda os que haviam desvendado o sertão africano, Serpa Pinto, Capelo, Ivens e outros. E Portugal não era um país pequeno assegurava um cartaz do Secretariado da Propaganda Nacional, na década de 30 (Angola e Moçambique, territórios extensos, eram também Portugal, enfatizava-se). 

Todavia, nos anos finais do regime, na década de 60, desdenhando a propaganda e cansados de tanta míngua, um milhão de portugueses partiria à procura de melhores destinos, na senda de um quotidiano menos sofredor (em terras de França, Alemanha e outras).

Já passaram cinquenta anos sobre a afirmação do Portugal democrático. O país modernizou-se, inevitavelmente, está mais rico e mais igual no género, mas continua a olhar para a generalidade da Europa, no respeitante a indicadores económicos, a partir de uma posição inferior. 

E o futebol, de que o povo comprovadamente gosta (como nos lembra o líder parlamentar do PSD para justificar as obsessivas idas do primeiro-ministro aos jogos de Portugal no “Mundial da bola”), numa espécie de sucedâneo dos grandes heróis catapultados nos manuais escolares do Estado Novo, de alguma forma tem-se projetado como a maior catarse disponível para as mágoas ou males nacionais do presente. 

Porque implausível, mesmo o desaforado Almada Negreiro certamente que hoje já não se atreveria a dizer que Portugal é o país mais selvagem de todas as Áfricas. 

Todavia, a recente correção do quantitativo populacional do nosso país pelo INE (acusando cerca de mais 700.000 pessoas do que o estimado) muito provavelmente virá fazer resvalar a posição do nosso país no ranking do rendimento per capita na UE. Descobriremos, decerto, que resvalaremos mais para os últimos lugares na tabela europeia e descobriremos ainda que nos faltava reconhecer a existência de muita pobreza. Como efeito benévolo colateral, a nossa dívida pública em percentagem do PIB deverá cair (mais gente, o PIB é maior). 

Cada país fará o que pode e o que a energia e o génio do seu povo lhe permitir, podemos conceder. Na história portuguesa, o Estado tem cronicamente pesado muito para o desenvolvimento (ou atraso) do país. Não podemos, assim mesmo, imputar aos sucessivos governos uma responsabilidade desmedida pelos males de que sofremos, pois, à laia da famosa frase num discurso de J. F. Kennedy, não devemos apenas perguntar o que o nosso país pode fazer por nós, mas igualmente questionarmo-nos sobre o que podemos fazer pelo nosso país (adaptado).

Em 1973, no seu Fado Tropical Chico Buarque, com ácida ironia sobre as ditaduras nos dois lados do Atlântico, cantava Ai, esta terra [o Brasil] ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se um imenso Portugal. E nós, Portugal, quem sabe, um dia ainda podemos vir a ser campeões do mundo no futebol ou – difícil, mas melhor – ainda poderemos ascender a um lugar de primeira linha, no referente à prosperidade e coesão social, na Europa. Tenhamos fé, mas no que se refere ao desenvolvimento todos teremos de porfiar por isso!

Amadeu J. C. Sousa

Amadeu J. C. Sousa

11 julho 2026