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Caminho a fazer

A Igreja é um povo em caminho e, como tal, está sempre em processo de discernir novas metas e de prosseguir o seu percurso. Há um ponto de partida, mas o horizonte concretiza-se através de realizações sempre novas.

Durante o Concílio Vaticano II, a Igreja compreendeu-se como comunhão, prolongamento da Trindade. Os últimos tempos têm ficado marcados por um reconhecer-se em caminho com os outros, num dinamismo sinodal que deve impregnar todo o seu ser. Ousou mesmo definir-se como ontologicamente sinodal, como quem diz: ou é sinodal ou não é Igreja. Existe um Documento Conclusivo, no qual foram acolhidas indicações para que isso aconteça. Vive-se agora uma terceira etapa, que pretende ser de "experimentação" de tudo quanto foi discernido.

O Papa Leão XIV não tem falado apenas de sinodalidade. A sua própria vida tem testemunhado este novo modo de ser, para que, neste novo tempo, a Igreja se torne um verdadeiro instrumento para uma humanidade mais digna e mais fraterna.

Se era costume que os cardeais se reunissem em consistório apenas ocasionalmente, agora esta reunião magna acontece duas vezes por ano. No sábado passado, terminou a mais recente. Quero recolher quatro ideias do discurso final do Papa.

Em relação às intervenções dos cardeais, o Papa afirma: «Muitos narraram os sofrimentos provocados pelas guerras, pela violência, pelas pobrezas e pelas numerosas injustiças que marcam a vida dos povos. Contudo, não vos limitastes a descrevê-los. Por detrás destes dramas, reconhecestes um sofrimento ainda mais profundo: a solidão.» (Papa, 27-06-26).

Penso poder concluir que a Igreja reconhece os problemas, mas assume que o grande desafio da atualidade é a solidão. Não quero ser misógino nem esquecer outras realidades. Tem-se dito que estamos todos muito mais próximos, mas também mais distantes uns dos outros. As relações são formais e ocasionais; as dificuldades dos outros não são reconhecidas, mesmo quando há conversas diárias; as esperanças procuradas não são interpretadas para que a ajuda aconteça. Amanhamo-nos, lado a lado, muitas vezes com tudo o que a vida moderna exige para parecer bem, mas os corações continuam fechados e os encontros são artificiais. Proclama-se que a fraternidade é o sinal que identifica a Igreja, mas são poucos aqueles que, à semelhança do Samaritano, param e decidem carregar a vida dos outros.

A parábola do Bom Samaritano foi a que abriu os trabalhos. No fim, o Papa, sem que isso constasse do programa, quis terminar lendo a história dos discípulos de Emaús. Dois homens desanimados, perdidos, fugindo da desilusão, encontram-se com Alguém que se intromete nas suas vidas, que lhes aquece o coração com a Palavra, e eles reencontram o caminho, correndo a contagiar os outros com a mesma alegria do amor que lhes foi oferecido.

Uma outra ideia do discurso papal foi uma espécie de «confissão»: parece-lhe que ainda se está a compreender o que é a sinodalidade. Não se trata de uma estratégia para delinear, em última análise, «quem tem poder na Igreja» e, consequentemente, para decidir segundo aquilo que foi encontrado pela conversação no Espírito. Esta é uma urgência a descobrir a nível mundial, nas dioceses, nas paróquias, nas congregações, nos movimentos e nos grupos. Só que o grande desafio é outro. Diz o Papa: «Como guardamos juntos o dom que o Senhor confiou à Sua Igreja?».

É este «dom» recebido que importa intuir e assimilar. É um «dom» que deve permear todo o agir da missão eclesial. A corresponsabilidade diz respeito a todos, todos, todos. Há muita coisa que pode e deve oferecer-se, e ninguém ignora como a Igreja está a realizar mais do que humanamente é capaz, com o consequente cansaço e desencanto. Urge, juntos, guardar o verdadeiro dom, saboreá-lo, oferecê-lo e semeá-lo em todos os ambientes e situações da vida humana. Não se trata de mais uma coisa que se oferece, entre tantas outras. O mundo não necessita de coisas, precisa urgentemente de tesouros que devem ser procurados, porventura exigindo a renúncia a muita coisa a que nos habituámos e que até pode parecer maravilhosa, mas que já não consegue responder às inquietações nem encher a solidão do mundo moderno. Os homens e as mulheres de hoje têm direito a receber da Igreja aquilo que ela tem de original e que mais ninguém lhes pode oferecer.

As férias podem ser este tempo favorável para ver como a sinodalidade está a encher as nossas agendas e, à sua maneira, a gerar novos cansaços e desalentos. Importa escutar a solidão e saber que «dom» se está a oferecer. Coisas não faltam. Mas será esse o «dom» que o Senhor confiou à Igreja" e que ela tem o dever de oferecer gratuitamente?

«Como guardamos juntos o dom que o Senhor confiou à Sua Igreja?»

D. Jorge Ortiga

D. Jorge Ortiga

11 julho 2026