Causou grande impressão a escolha do nome pelo atual Papa. Para ele, o significado era muito claro e tornou-se, para a Igreja, por si só, um verdadeiro programa. Com efeito, ninguém duvida de que quis olhar para a história recente, onde descobriu um Papa que reconheceu as coisas novas que estavam a acontecer e para as quais a Igreja, na fidelidade ao Evangelho, deveria encontrar respostas igualmente novas.
Leão XIII, perante os desafios de um mundo novo gerado pela Revolução Industrial, quis que a Igreja tomasse partido em defesa da nova classe operária. Assim, com a Rerum Novarum, nascia a Doutrina Social da Igreja, não no sentido de novidade absoluta, pois a experiência e a reflexão sobre temas como o bem comum, a liberdade, a solidariedade e a caridade marcaram a sua história plurissecular. Depois, ao longo de todo o século XX, foi-se experimentando como a vida social e a missão da Igreja constituíam uma única dinâmica. A propósito, dizia alguém: “A existência humana é uma operação divina e as vicissitudes de cada dia assumem o valor de uma liturgia.”
Os cristãos foram convocados, com frequência, para uma ação transformadora da história: ser Igreja no mundo e, aí, optar por atitudes evangélicas, trabalhando para que a sociedade se desenvolva segundo critérios de um humanismo integral. Entretanto, foram surgindo vários estudos e apareceu, com uma forte dose de questionamento, aquilo a que se chamou o “quinto evangelho”. Não me detenho a tentar explicar o sentido desta expressão. Ela é, por si mesma, elucidativa. Na verdade, o cristianismo é para o mundo como fermento de uma sociedade mais fraterna e mais justa. “Cada história, pequena ou grande, é o lugar onde o amor cristão gera vida, transforma as sociedades, produz o bem e edifica a cidade de Deus.”
É certo que a vida humana pode estar repleta de dores e de sofrimentos; contudo, continua sempre a ser um caminho a percorrer para que, nesses contextos diversificados, se vá concretizando a revolução que Cristo iniciou e que, hoje, deve ser protagonizada pela Igreja, isto é, pelos cristãos. De resto, quando São Paulo escrevia aos cristãos de Corinto não deixava dúvidas: “Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum. […] Fomos batizados num só Espírito para constituirmos um só Corpo” (1 Cor. 12, 12-13). Por isso, a Doutrina Social da Igreja é um Evangelho a viver.
Surge agora a primeira encíclica do Papa Leão XIV. Desde logo, o título é desafiante. Nela, somos chamados a cuidar e defender “uma magnífica humanidade habitada por Deus”, promovendo a verdade, a dignidade do trabalho, a justiça e a paz. Ora, na era da Inteligência Artificial, é necessário desarmá-la, para que sirva a humanidade e não se torne um poder ao serviço de pequenos grupos. Aliás, as suas primeiras palavras propõem uma escolha da qual dependerá o futuro da humanidade: “A magnífica humanidade que Deus criou encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: levantar uma nova Babel ou edificar a cidade onde Deus e a humanidade habitem juntos.”
Não pretendo entrar nos seus variadíssimos conteúdos. Certamente surgirão muitos comentários e considerações. Basta-me, porém, sublinhar dois aspetos elencados pelo Papa logo nos primeiros números: “Cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer amadurecer a história como lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada” (n.º 1).
Trata-se de uma tarefa confiada à Igreja através de cada cristão, mas a complexidade dos desafios exige que trabalhemos em conjunto: “Desejamos entrar em diálogo com todos os homens e mulheres do nosso tempo, com os quais partilhamos os acontecimentos, as questões e as aspirações da humanidade. Com eles, queremos individuar novos caminhos para o bem comum e para a promoção de uma vida digna para todos” (n.º 2).
Há, pois, uma batalha a travar. Não pode ser ignorada, muito menos condenada à partida. A Inteligência Artificial oferece muitas perspetivas de desenvolvimento, embora, por vezes, embrulhadas em ideias inadequadas ao bem comum. Quer queiramos quer não, já estamos mergulhados em muitos ambientes nascidos desta nova era. Assim sendo, mais do que nunca, necessitamos de estar atentos para não nos envolvermos em esquemas que parecem manifestar o progresso da humanidade, mas que estão, única e simplesmente, ao serviço de poucos.
Nem sempre a verdade, nas coisas correntes da vida quotidiana ou nos acontecimentos mundiais, é a preocupação e a intenção de quem elabora notícias e até configura fotografias que deturpam a realidade. Todavia, isto é apenas um pequeno pormenor. Há “histórias” muito mais complexas que nem sempre estão orientadas para construir uma humanidade verdadeiramente maravilhosa. Existem potencialidades. Não faltam riscos. Em última análise, queremos uma nova Babel de desigualdades ou uma humanidade capaz de oferecer progresso e dignidade para todos?