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A inteligência artificial também precisa de mosteiros

A novidade mais provocatória da Encíclica Magnifica Humanitas talvez não esteja onde a procuraríamos. Não está apenas na denúncia do poder tecnológico, na crítica da automatização, na defesa do trabalho ou na exigência de uma regulação ética da inteligência artificial. Tudo isso é importante, mas ainda pertence ao vocabulário habitual da discussão pública. O que a encíclica propõe de verdadeiramente disruptivo é outra coisa: a ideia de que o problema da IA não é, antes de mais, técnico, jurídico ou económico. É espiritual. A questão decisiva não é apenas saber que máquinas queremos construir, mas que tipo de humanidade estamos a permitir que essas máquinas fabriquem em nós.

Por isso, talvez precisemos de uma imagem inesperada: a inteligência artificial precisa de mosteiros. Não mosteiros como fuga ao mundo, nostalgia medieval ou reserva piedosa para almas assustadas com o futuro. Precisa de mosteiros no sentido mais exigente do termo: lugares de disciplina interior, de desaceleração, de escuta, de discernimento comunitário e de resistência à tirania do imediato. A grande questão do nosso tempo não é se a IA será mais rápida do que nós. Já é. A questão é se, perante essa velocidade, ainda seremos capazes de pensar, julgar, cuidar, esperar e amar.

A encíclica recorre às imagens bíblicas da Torre de Babel e da Muralha de Jerusalém. A Torre de Babel é a técnica convertida em religião civil: uma só linguagem, uma só eficiência, uma só métrica e uma só torre erguida até ao céu. A Muralha de Jerusalém, pelo contrário, é reconstruída por partes, com mãos diversas, ritmos diferentes e responsabilidades repartidas. A escolha é mais radical do que parece. Não se trata de escolher entre tecnologia e antitecnologia, mas entre uma tecnologia que concentra poder e uma tecnologia que distribui responsabilidade; entre sistemas que reduzem a pessoa a dados e comunidades que se recusam a entregar ao cálculo.

O erro tem sido procurar uma ética da IA como quem instala um alarme depois de ter construído a casa. A encíclica sugere algo mais profundo: é preciso repensar a própria arquitetura da casa. Uma sociedade que vive da excitação permanente, da vigilância voluntária, da mercantilização da atenção e da substituição da verdade pela performance não será salva por códigos de conduta algorítmica. Poderá ter IA “responsável” e, ainda assim, produzir cidadãos incapazes de responsabilidade. Poderá ter transparência técnica e, ainda assim, viver na opacidade moral. Poderá ter máquinas explicáveis e consciências inexplicavelmente adormecidas.

Daí a necessidade de uma espécie de ascese pública. A escola, a universidade, a empresa, a política e até a Igreja terão de criar espaços onde a inteligência humana não seja humilhada pela pressa, onde a palavra volte a ter peso, onde o erro possa ser reconhecido sem imediata lapidação digital, onde a verdade seja procurada como bem comum e não usada como arma tribal. O futuro da IA não se decide apenas nos laboratórios das grandes tecnológicas, mas nas pequenas liturgias quotidianas da atenção: como lemos, como discutimos, como trabalhamos, como educamos, como descansamos, como resistimos à tentação de transformar tudo em utilidade.

O mais “fora da caixa” que a Igreja pode dizer ao mundo tecnológico talvez seja isto: o humano não é um problema de otimização. A fragilidade não é uma falha de sistema. A demora não é sempre ineficiência. A dependência recíproca não é atraso. E a consciência não é um periférico da inteligência. Enquanto a cultura dominante sonha com seres aumentados, a encíclica recorda que o verdadeiro aumento do humano não consiste em escapar aos limites, mas em habitar os limites com amor, justiça e responsabilidade.

A Magnifica Humanitas não é, pois, uma encíclica contra a inteligência artificial. É uma encíclica contra a incompetência espiritual de uma civilização que confunde poder com grandeza. O seu apelo final poderia traduzir-se assim: antes de ensinarmos as máquinas a parecer humanas, reaprendamos nós a sê-lo.

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Luís M. Figueiredo Rodrigues

30 maio 2026