Soube, há uns dias atrás, que o primeiro Domingo de fevereiro é o Dia Mundial da Leitura em Voz Alta. Numa breve pesquisa, deparei-me com o motivo desta efeméride: “lembrar-nos que a leitura não tem de ser solitária nem silenciosa. Pelo contrário, pode ser um momento coletivo, cheio de expressão e significado, onde a voz se transforma num instrumento de encontro e descoberta”. E ainda: “incentivar pessoas de todas as idades a lerem juntas, especialmente com crianças e jovens. A ideia é mostrar que a leitura não é só uma realidade escolar, mas um ato social, afetivo e transformador”.
Continuei a pesquisa e descobri que, na Grécia e na Roma antigas, ler em voz alta era a forma mais comum de proceder. Foi então que me lembrei de que, na estrada entre Jerusalém e Gaza, Filipe ouviu o eunuco etíope a ler o profeta Isaías (cfr. At 8, 30), seguramente porque lia em voz alta. Entretanto, veio-me também à memória ter lido, um dia, que Agostinho de Hipona tinha achado estranho ver Ambrósio de Milão a ler em silêncio: “os olhos percorriam as páginas e o coração buscava o sentido, mas a voz e a língua repousavam”1.
Divagando sobre o assunto, algo surpreendido até com o que ia descobrindo e pensando, recordei-me de que alguns professores me aconselhavam a leitura em voz alta. Não faço ideia se alguma vez justificaram o conselho, mas percebo agora que fazia todo o sentido, até porque “uma história lida em voz alta ecoa no coração”2. É por isso que, nas celebrações, não lê cada um para si, mas há apenas um que lê em voz alta, para que todos escutem, indo de encontro ao princípio de que a Palavra de Deus foi escrita para ser proclamada e escutada (cfr. Ap 1, 3).
Na antiguidade, a leitura silenciosa era incomum. E tal acontecia porque os textos eram escritos sem espaços entre as palavras (scriptio continua), tornando a leitura mais difícil (ler em voz alta ajudava a “decifrar” o texto); ler era uma atividade social e performativa; e a oralidade tinha um enorme prestígio (a poesia, a filosofia e as cartas importantes eram ditas e não apenas lidas). Além disso, só alguns sabiam ler (o analfabetismo era grande) e, por isso, os outros escutavam a sua leitura.
Na Idade Média, a leitura silenciosa tornou-se dominante, em virtude de mudanças na escrita (introdução de espaços e pontuação), no formato dos livros e na relação mais individual com o texto. E tal prevaleceu até aos nossos dias.
Dizem os entendidos que a leitura em voz alta desempenha um papel essencial no desenvolvimento da linguagem, da escuta e da compreensão; ajuda a enriquecer o vocabulário; estimula a imaginação3 e a criatividade4; fortalece o vínculo emocional entre quem lê e quem escuta; incentiva o hábito pela leitura; e promove empatia, já que as histórias ajudam a entender outras realidades. Ler em voz alta é partilhar tempo, emoções, ideias e sentimentos5; é um gesto simples que fortalece laços, promove a empatia e cria memórias6. E ainda: transforma palavras em encontros, porque dá vida à história.
Quem nunca fez a experiência de recorrer à leitura em voz alta para fixar e compreender melhor um texto? É que as palavras ditas em voz alta fixam-se melhor e até encontram novos sentidos. Se o texto cresce com a sua leitura, agiganta-se quando lido em voz alta. De facto, este tipo de leitura muda a forma de pensar, de memorizar e até de interpretar. Ocupa, por isso, um lugar de relevo na construção da identidade das crianças e continua a ser importante depois disso: jovens e adultos beneficiam do prazer de ouvir histórias, poemas ou textos que convidam à reflexão e ao diálogo. Convém lembrar que é essa a principal finalidade da leitura litúrgica: proclamar a Palavra de Deus e proporcionar aos ouvintes um momento de construção e afirmação da identidade cristã, em contexto celebrativo.
O Dia da Leitura em Voz Alta celebra o poder da palavra dita para ligar pessoas, formar leitores e espalhar conhecimento; e faz vir ao de cima a magia que acontece quando um texto ganha som, ritmo e emoção. Ler em voz alta é muito mais do que decifrar palavras: é dar-lhes vida, estimular a imaginação de quem ouve e construir pontes entre pessoas, gerações e culturas; é crescer na amizade e na empatia; é sentir-se abraçado por um livro e pelo seu conteúdo que, com frequência, nos estimula e transforma a nossa vida.
Para concluir, esta efeméride alerta para a necessidade de valorizar a leitura como uma experiência compartilhada e lembra que ler em voz alta fortalece vínculos, amplia a aprendizagem e desperta o prazer pelos livros, que cresce à medida que ouvimos histórias. Se não for abuso, peço aos meus leitores que (re)leiam este texto em voz alta e constatem a importância deste tipo de leitura.
* Professor na Faculdade de Teologia – Braga e Pároco de Prado (Santa Maria)
1 Agostinho de Hipona, Confissões, livro VI, capítulo 3.
2 A minha experiência enquanto aluno e professor confirma que ler em voz alta ajuda a decorar. E convém lembrar que a expressão “saber de cor” significa “saber de coração” (do latim cor, cordis, “coração”).
3 Li algures que “a leitura em voz alta é o som da imaginação”.
4 Circula nos manuais escolares, em projetos de leitura e nas redes sociais esta frase, de autor desconhecido: “Quando a leitura ganha voz, a imaginação ganha asas”.
5 Uma história lida em voz alta pode confortar, inspirar ou simplesmente arrancar um sorriso.
6 É também de autor desconhecido a frase “Ler em voz alta é dividir histórias e criar memórias”.