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A história das pátrias

 

 

Um dia destes encontrei, ou melhor, fui encontrado por um ex-aluno: “casei-me com uma espanhola e vivo em Vigo. Naturalmente, de vez em quando falávamos dos acontecimentos históricos dos dois países principalmente quando ambos se encontravam em campo de batalhas. Minha mulher desconhecia praticamente que tivesse havido as batalhas de Afonso Henriques e ficou muito surpreendida quando mencionei a batalha de Aljubarrota ou a nossa epopeia marítima. Dizia-me que era uma estória que nós portugueses, havíamos construído por heroísmo exacerbado. Apontava-me a grandeza espanhola toda recheada de grandes conquistas, do seu império colonial sul americano e mencionava escritores e pintores que não lhe sei mencionar e os feitos e memórias heroicas que fizeram de qualquer espanhol, estivesse onde estivesse, um grande de Espanha. E perguntávamos um ao outro se os nossos professores primeiros, não nos tinham mentido e, se isso fora verdade, porque nos mentiram? Estávamos sentados num lugar público e eu então disse-lhe: senta-te e ouve: cada país tem na sua história, glórias e misérias, vitórias e derrotas, heróis e vilões. Acontece que cada um não menciona os males e só referencia as glórias, as vitórias. É chamada a história heroica. Porquê? Porque a história de um país é um meio, talvez o mais válido, para formar nos jovens aquele sentimento patriótico de que a nação precisa. Então ensinam-nos mentiras, interrompeu ele. Não, isso não, o que não se fala é nas misérias para que se não perca o patriotismo em conjeturas de menores valias. O sentimento que temos por Portugal, este orgulho de ser português foi construído pelos heróis da história de Portugal. Se assim não fosse cada português nunca sentiria em si o que é ser português e ímpar no orgulho de ser lusitano. E o que se diz de nós, o mesmo se passa com os espanhóis e todos os povos do mundo. Esta formação patriótica veio-nos da Grécia antiga que, na aplicação da “paideia”, isto é, duma educação holística do educando, levou-os à essência duma educação integral. Tens filhos?, perguntei-lhe. Então contas-lhes os teus sucessos ou as tuas derrotas? Eles têm em ti um herói porque ganhas sempre ou porque és um falhado? Se a escola não forma para os valores, então não passa duma oficina onde se malha o ferro frio.

Paulo Fafe

Paulo Fafe

2 fevereiro 2026