Recentemente, Luís Castro viu-se obrigado a pedir desculpa por um comentário que “mentes puras” consideraram racista. No final de um jogo em que a sua equipa sofreu três golos em poucos minutos, afirmou: “tivemos uma noite negra”.
Passei por algo semelhante, alguns dias depois. Numa publicação do Facebook surgia uma atleta a destruir uma raquete de ténis. Comentei que poderia tê-la oferecido a uma criança no final do jogo e descarregar a fúria em privado, pois assim teria feito alguém feliz. Surgiu de imediato um “defensor dos bons costumes” a explicar que “todos os grandes tenistas partem raquetes, assim”. Respondi que isso não tornava o gesto bonito nem aceitável. Veio então o argumento final: “está a criticar porque é mulher e negra; o vídeo tem um padrão machista e racista.
Terminei o diálogo com uma pergunta simples: sabes quando reparei que a atleta era negra? Quando fizeste esse comentário. Critico - e criticarei sempre - o mau perder no desporto, seja ele protagonizado por homens ou mulheres, brancos, negros ou de outra cor qualquer. Vivemos na era do politicamente correto, em que cada um interpreta o que outro diz, à luz das suas próprias lentes e pensamento, transferindo para o outro um ónus que muitas vezes não existe.
A própria língua ajuda a perceber como estas associações são antigas e simbólicas. O branco surge associado ao que é permitido: fala-se em ficha limpa, bandeira branca (paz). O negro, pelo contrário, é usado recorrentemente para o que deve ser evitado: listas negras, mercado negro, ovelhas negras. Até na eleição do Papa, o fumo negro é sinal que não há novo Papa, só havendo festa quando o fumo é…branco.
Eu, esquerdino, poderia sentir-me ofendido - e muitas vezes brinco com isso - quando leio manchetes entusiastas a anunciar que uma equipa ou atleta “entrou com o pé direito”. A verdade é que em inúmeros desportos muitos dos maiores atletas de sempre, são esquerdinos. Preciso de os nomear?
Seguindo a mesma lógica, todos os esquerdinos deveriam exigir pedidos públicos de desculpa, sempre que tal expressão fosse usada.
Questionei a IA sobre a origem da expressão e a resposta foi clara: na Antiguidade, o lado direito estava associado à sorte, ao bom presságio e à virtude; o esquerdo era visto como suspeito ou azarado. Durante séculos, escrever com a mão esquerda foi corrigido à reguada ou atando a mão dos esquerdinos à cadeira ou atrás das costas para os obrigar a escrever com a direita.
A mesma IA alertou-me, contudo - infelizmente, digo eu - que juridicamente os tribunais ainda não aceitam ações baseadas em lateralidade motora.
A nossa língua está cheia destes preconceitos normalizados. Dizer-se que alguém “tem dois pés esquerdos” significa falta de jeito. No futebol, arrisco dizer, ter dois pés esquerdos poderia valer muitos milhões.
Talvez o problema não esteja nas palavras, mas na forma apressada e literal como insistimos em interpretá-las, sempre à procura de uma intenção ofensiva. Um pouco mais de bom senso seria aconselhável ao discurso público e no desporto também. Perdoa-lhes Luís Castro, obviamente, eles não te conhecem.