Espaço do Diário do Minho

Padre António Freire, um génio das Humanidades

18 Nov 2019
Acílio Estanqueiro Rocha

Em 18 de Novembro de 2019 perfaz um centenário sobre o nascimento de António Jorge Freire Júnior – mais conhecido por Padre Freire, como gostava de ser tratado –, nascido em Lisboinha, freguesia de Pousaflores, concelho de Ansião (distrito de Leiria e diocese de Coimbra), que veio a falecer em Braga em 18 de Fevereiro de 1997, aos 77 anos, vítima de doença cancerígena. Mestre de sucessivas gerações de estudantes na Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa, para os quais as lições inigualáveis deste Jesuíta de craveira excepcional permanecerão inolvidáveis – tal a sabedoria e empatia que irradiava –, teve uma carreira fulgurante no campo das Humanidades, mormente nos Estudos Clássicos (Grego e Latim) – domínios em que era uma das figuras mais proeminentes tanto a nível nacional como internacional.

1. Já nos bancos da Escola Primária – assim se designava no tempo – se revelou uma criança especialmente dotada e fora do comum, pelo que o seu professor da instrução primária muito instou para que prosseguisse os estudos – tal como sua mãe também ansiava –, mas as origens modestas e a inexistência de escolas oficiais na região eram um obstáculo intransponível. Foi o seu primo, João Mendes Lopes, quem se encarregou e tratou de todos os procedimentos necessários, tendo António Freire realizado os seus estudos liceais em Guimarães e Macieira de Gambra e ingressado na Companhia de Jesus aos 18 anos de idade (1937); após 4 anos de noviciado e a conclusão do Curso de Filosofia (1945), continua dois anos em Guimarães como professor de Latim e Grego aos noviços jesuítas, prosseguindo (1947) os seus estudos de Teologia em Oxford (até 1949) e Granada, onde, em 15 de Julho de 1950 é ordenado sacerdote; passando por Salamanca (1951-1952), regressa depois a Portugal, retomando a actividade docente, leccionando disciplinas no âmbito da Língua e Cultura Grega e Latina na Faculdade de Filosofia de Braga, tendo ainda sido, entre 1961 e 1964, professor de Literatura Grega e Latina no Centro de Estudos Humanísticos anexo à Universidade do Porto.

2. Um marco incontornável foi, em Outubro de 1967, o seu doutoramento na então Pontifícia Faculdade de Filosofia de Braga, defendendo a tese intitulada Conceito de Moira na Tragédia Grega, em que obteve a elevada classificação de 19 valores, sendo já um vulto de renome internacional em Filologia e Literatura Grega e Latina. As suas disciplinas predilectas eram História da Filosofia Antiga, Filologia e Literatura Latina e Grega, Cultura Clássica, Filologia Portuguesa, e nunca interrompeu o ensino, nem sequer nos dois anos sabáticos que passou na Alemanha, onde chegou a dar, por vezes, cinco aulas por dia num grande colégio alemão – conforme testemunha. Foi convidado para leccionar na Universidade de Lisboa e na de Saarbrücken (Alemanha), mas não aceitou por não ter substituto na sua Alma Mater, onde leccionou desde 1967.

Infere-se, pois, que era um versado poliglota – uma outra marca do génio humanístico do jesuíta António Freire: além de ter ensinado toda a vida as línguas Grega e Latina – ouvi-lhe discursos improvisados nessas línguas –, especializou-se também em Línguas Modernas, cuja aprendizagem aperfeiçoou com a estadia de 2 anos em Inglaterra, e na Espanha, 2 na Alemanha, 5 na Grécia, e várias estadias em França e Itália. Ainda jovem, ensinou alemão a iniciados enquanto seguia aulas mais adiantadas; na Inglaterra, após dois meses de estudo do hebraico, o professor confiou-lhe metade da turma; em Granada, ensinou inglês aos companheiros de Teologia, e, em Salamanca, ensinou inglês aos estudantes jesuítas.

3. Qual vulto das Humanidades Clássicas, empreendeu viagens de estudo por toda a Europa, pelos países escandinavos, pela Rússia e países da então Cortina de Ferro, pelo Egipto e Israel, pelos Estados Unidos, Brasil, México e Canadá; de quase todas essas viagens resultaram livros ou artigos e entrevistas em diversas revistas e jornais. Participou também em vários congressos internacionais, uns sobre “Latim Vivo” e outros sobre “Estudos Neolatinos”: em Lyon (1959), Roma (1966), Avinhão (1969), Bucareste (1970) – neste congresso foi ovacionado e denominado “Cícero Redivivus” –, Lovaina (1971), Amesterdão (1973), como foi também muito admirado no Colóquio Internacional em São Paulo (Brasil), sobre “Metafísica cristã e ateísmo actual” (1981) – conforme missiva recebida pelo Director da Faculdade de Filosofia de Braga.

Meu conterrâneo, recordo a entrevista que lhe fiz para o jornal mensal da nossa região – “Voz das Cinco Vilas”, em Fevereiro de 1971 –, donde extraio o parágrafo: “A minha viagem do último Verão foi a mais longa e variada que empreendi até hoje: um mês e dois dias, quase a andar, de comboio e sozinho. Depois de transpor a Espanha, França, Bélgica e Alemanha, subi à Suécia e regressei a Paris; dali atravessei a Suíça, a Itália, e internei-me nos países da Cortina de Ferro, Jugoslávia, Bulgária, Roménia, Hungria… Estive no Norte da Grécia, em Salónica e no famoso Monte Atos, onde não é permitida a entrada a mulher nem a fêmea alguma (…)”. Sem dúvida, uma pessoa afável e generosa, um comunicador nato de tal ressalto que os alunos ansiavam por suas aulas, a que não faltavam e, como diziam em alta voz, não se cansavam, o mesmo ocorrendo com quem almejava ouvi-lo nas homilias – e eram tantos! –, dando o tempo como muito bem empregue.

4. É longa a lista de livros publicados – mais de meia centena de obras – e inúmeros são os seus artigos – quase uma centena – em revistas nacionais e estrangeiras, como a Revista Portuguesa de Filosofia, Brotéria, Lumen, Euphrosyne,Humanitas, Les Études Classiques (Bélgica), Revista da Faculdade de Letras de Bucareste (Roménia), Latinitas (Roma), Vita Latina (França), Orbis Latinus (Argentina).

Sendo longa a lista de livros, sobre alguns é impossível calar-me – dentre os muitos que tenho oferecidos e com dedicatória do Autor. Desde logo, Conceito de Moira na Tragédia Grega (1969) – obra de acentuado cunho filosófico –, onde o escopo primordial é responder à questão: “fatalista, a tragédia grega?”, a que o Autor responde ““não”, categórica e convictamente”, contra uma plêiade de célebres contraditores, cujos argumentos são pari passu infirmados com copiosa documentação, numa linguagem rigorosa e em estilo primoroso que cativam e prendem o leitor à leitura da obra. É, pois, um longo trabalho de tese, mas onde são elucidadas também a origem da tragédia grega, a paternidade literária do “Prometeu Agrilhoado” de Ésquilo, a peculiaridade do Coro grego, o objectivo de Sófocles na composição do Édipo em Colono, os suicídios de Antígona e de Ájax, etc. Era já o 23º livro escrito pelo autor.

O Pensamento de Platão (1967) é um dos mais importantes estudos publicados em Portugal sobre o pensamento do Mestre da Academia de Atenas, analisando, nos seus 13 capítulos, todas as dimensões do pensamento dum dos grandes filósofos gregos, desde o problema gnoseológico à concepção platónica do amor, às ideias estéticas de Platão, à concepção do Estado e à doutrina social, às ideias pedagógicas do Filósofo dos Diálogos. É obra sumamente útil para professores e estudantes, que, quando eu leccionei História da Filosofia Antiga – várias vezes –, vivamente aconselhei.

Em Humanismo Integral (1993), António Freire aborda um conjunto de questões afins aos vários humanismos, desde a paidéia helénica, a Manuel Álvares e a repercussão da sua Gramática latina, Pedro da Fonseca como humanista e filósofo, o legado homérico em Camilo Castelo Branco, considerando ainda as obras de Aquilino Ribeiro, Orlando Albuquerque e Fernando Pessoa. Para o Autor, o conteúdo do termo humanismo não só não se esvaziou, como se projecta numa semiótica que inquire o humanismo pagão, o humanismo cristão, e onde quer que lobrigue sentido o verso de Terêncio – “homo sum, humani nil a me alienum puto” (“sou um homem e nada do que é humano me é estranho”). Em Teísmo Helénico e Ateísmo Actual (1983), é dilucidada uma panorâmica do ateísmo antigo e do actual, num estudo aprofundado da filosofia helénica (pré-socráticos, sofistas, Sócrates, Platão, Aristóteles e Plotino), centrada nos seus valores teísticos, culminando numa reflexão já sobre a actualidade.

5. Interessou-se e estudou alguns dos estros da literatura portuguesa, de que é exemplo Lendo Miguel Torga (1990), onde o Padre Freire transmite todo o entusiasmo que o empolga pela figura ímpar desse escritor conimbricense, incutindo à leitura das obras – em prosa e em verso – daquele que considera um dos expoentes do português actual, já pela robustez e clareza de estilo, pujança de imaginação, vernaculidade e criatividade poética, só comparado a Vieira e Camilo, e que fazem de Torga um poeta criador, até mesmo quando escreve prosa: maior prosador que poeta, maior poeta porque prosador. Também em Florbela Espanca, poetisa do amor (1994) – livro apresentado como 2ª edição d’O destino em Florbela Espanca (1977) –, é muito mais que isso – como o novo título o sugere –, pois não só o volume é maior e com novos temas, sendo mais um aturado e palpitante estudo sobre a Poetisa, reflectindo sobre a sua vida e obra – este já o 67º livro de António Freire. E muitos outros livros publicou, como Humanismo Clássico (1986), Estudos de Literatura Grega(1987), O Teatro Grego (1985), Lições de Língua e Literatura Latinas (1962), Grécia Antiga e Grécia Moderna (1965), Israel Antigo e Moderno (1967), etc., cerca de seis dezenas, incluindo aqueloutra obras decorrentes da sua actividade pastoral, mormente entre os jovens – muitas escreveu e de leitura aliciante.

6. Apraz-me enfatizar a série de programas televisivos na RTP em que foi protagonista, sobre “Questões da Língua Portuguesa”, um pouco na linha das “Charlas Linguísticas” do Dr. Raul Machado – programa dos anos 60 que os mais idosos se recordarão –, instrutivos e elucidativos, que António Freire, como autor, incluiu na sua obra Lições de Filologia e Língua Portuguesa (1983); nesta, ao “Antelóquio”, segue-se uma parte teorética sobre a nossa língua materna (muito útil para professores de Português, Latim e Linguística), e uma outra sobre Helenismos Portugueses, sendo a mais extensa a relativa às “Questões da Língua Portuguesa”, do maior interesse para esclarecer as múltiplas dificuldades que assediam quem fala ou escreve português. Não se trata duma mera reduplicação de lexemas ou sintagmas já versados por outros, pois neste livro se tipificam soluções pertinentes, grafias adequadas e novas ortoépias, com vista a uma reformulação filológica mais racional de múltiplos vocábulos e frases do nosso idioma.

7. Falta ainda considerar uma caudalosa torrente de publicações específicas, merecedoras da maior atenção e de aprofundado estudo: refiro-me à Gramática Grega (1947) – por onde estudei língua grega –, à Gramática Latina (1956), à Selecta Grega (1947) e Selecta Latina (1963, que veio a ter 3 vols.) – com preciosas introduções e anotações –, todas com várias edições sucessivas, e ainda vários livros de exercícios e de aplicação de conhecimentos no que às línguas clássicas concerne. De facto, neste centenário do nascimento do Padre António Freire, há uma lacuna que mui dificilmente será colmatada: a realização dum Colóquio sobre a vasta obra deste insigne Jesuíta, com a participação de especialistas nas áreas em que foi exímio, desde estudos apropriados sobre as gramáticas acima mencionadas – trabalhos de grande mestria científica –, bem como sobre a sua obra filosófica, humanística, cultural, cujas actas seriam objecto de publicação. Receio que jamais se dilucide convenientemente o génio que era o Padre António Freire, em especial a originalidade e riqueza da sua vasta obra no campo das Humanidades.

O autor não segue o nefasto e impropriamente denominado acordo ortográfico.



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