A Carta Apostólica Traçar novos mapas de esperança, do Papa Leão XIV, foi publicada já em 27 de outubro de 2025, por ocasião dos 60 anos da declaração conciliar sobre a educação cristã, Gravissimum Educationis, um texto com o qual “o Concílio Vaticano II lembrou à Igreja que a educação não é uma atividade acessória, mas constitui a própria textura da evangelização; é o modo concreto de o Evangelho se tornar gesto educativo, relação, cultura” (1.1.). Este documento do Papa assinala também o 5.º aniversário do Pacto Educativo Global do Papa Francisco, um texto que vale muito a pena ler e refletir. Escusado será dizer que já li e reli todos estes documentos, retirando dessa leitura um enorme proveito, aos mais diversos níveis.
Não sendo possível destacar todas as afirmações relevantes desta Carta Apostólica, fico-me por aquelas que, em meu entender, dizem o essencial. O Papa começa por constatar que “vivemos num ambiente educacional complexo, fragmentado e digitalizado. Precisamente por isso, é sensato fazer uma pausa e recuperar a perspetiva da ‘cosmologia da paideia cristã’: uma visão que, ao longo dos séculos, soube renovar-se e inspirar positivamente todas as faces poliédricas da educação. Desde as suas origens, o Evangelho gerou ‘constelações educativas’: experiências humildes e poderosas, capazes de ler os tempos, de salvaguardar a unidade entre fé e razão, entre pensamento e vida, entre conhecimento e justiça” (1.2.).
Numa profunda reflexão sobre o papel da educação no mundo contemporâneo, Leão XIV afirma que “educar é um ato de esperança e uma paixão que se renova, porque manifesta a promessa que vislumbramos no futuro da humanidade. A especificidade, a profundidade e a amplitude da ação educativa residem no esforço, tão misterioso quanto real, de ‘fazer florescer o ser’, ‘cuidar da alma’” (3.2.). Impõe-se, então, tornar a educação mais humana, visto que “uma pessoa não é um ‘perfil de competências’, não se reduz a um algoritmo previsível, mas é um rosto, uma história, uma vocação” (4.1.). É por isso que “a formação cristã abarca a pessoa inteira: espiritual, intelectual, afetiva, social e corpórea. Não contrapõe o manual ao teórico, a ciência ao humanismo, a técnica à consciência; pelo contrário, exige que o profissionalismo seja habitado por uma ética, e que a ética não seja uma palavra abstrata, mas uma prática quotidiana. A educação não mede o seu valor só em termos de eficiência: mede-o pela dignidade, pela justiça, pela capacidade de servir o bem comum. Esta visão antropológica integral deve permanecer o eixo sustentador da pedagogia católica” (4.2.).
A Carta destaca também a importância da colaboração entre a família, a Igreja, o Estado e a sociedade civil, até porque “a verdade busca-se em comunidade” (3.2.). As diferentes instituições e carismas devem trabalhar em conjunto para formar, criando uma rede educativa1 mais humana e inclusiva. Nesse sentido, valoriza o diálogo entre culturas, religiões e saberes, bem como o uso responsável das novas tecnologias, que devem servir e nunca substituir a pessoa. E sugere que “a educação católica pode ser um farol: não um refúgio nostálgico, mas um laboratório de discernimento, de inovação pedagógica e de testemunho profético” (11.1.).
Na impossibilidade de citar todas as afirmações de relevo deste texto, resta-me apresentar, em síntese, algumas das ideias que o atravessam diametralmente. Porque a sociedade enfrenta hoje desafios inéditos (a fragmentação das relações humanas, o excesso de conectividade digital, as desigualdades sociais, as guerras e a crise ambiental), a educação assume, neste contexto, uma missão essencial para reconstruir pontes entre as pessoas e promover uma cultura do encontro. As escolas, as universidades e as comunidades educativas devem tornar-se espaços de diálogo, de solidariedade e de crescimento humano, capazes de formar cidadãos conscientes e comprometidos com o bem comum.
Como sempre acontece nos documentos da Igreja, assume centralidade, nesta Carta Apostólica, a defesa da dignidade da pessoa humana. O Papa alerta para o perigo de reduzir os indivíduos a números, algoritmos ou simples competências profissionais. Afirma que cada pessoa possui um valor único e irrepetível, devendo a educação cultivar não apenas a inteligência, mas também a dimensão ética, espiritual, afetiva e social do ser humano. Por isso, apresenta a educação cristã como uma pedagogia da esperança, capaz de ajudar os jovens a enfrentar as incertezas do presente, sem perder a confiança no futuro.
Para concluir, é claro o convite do Papa a renovar o compromisso com uma educação centrada na pessoa, na fraternidade e na esperança. A Carta Apostólica recorda que educar é um ato de amor e de transformação social, capaz de iluminar os caminhos da humanidade, num tempo marcado pela incerteza. Mais do que um texto sobre as escolas, este documento é uma reflexão sobre o futuro da sociedade e sobre a necessidade de formar gerações mais conscientes, solidárias e abertas à transcendência.
1 O Papa fala de uma “constelação educacional”. E adianta que “cada ‘estrela’ tem um fulgor próprio, mas todas juntas traçam um rumo. Onde antes havia rivalidade, hoje pedimos às instituições que convirjam: a unidade é a nossa força mais profética” (8.1.).