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Instituições da Igreja fundamentais no tratamento da saúde mental

Instituições da Igreja fundamentais no tratamento da saúde mental
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Publicado em 24 de outubro de 2017, às 15:09

A Casa de Saúde do Bom Jesus associa-se ao Dia Mundial do Alzheimer, que hoje se assinala, com as atividades ocupacionais desenvolvidas habitualmente na instituição, especialmente na "sala dos afetos".

Na véspera da comemoração da efeméride, o Diário do Minho visitou este estabelecimento de saúde, gerido pelo Instituto das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, que acolhe 375 utentes nas suas unidades de internamento (de curta, média e longa duração), dos quais mais de 60 padecem da doença de Alzheimer. O diretor clínico, António Pacheco Palha, realçou o «excelente trabalho» que é feito diariamente nesta instituição, a qual recebe doentes não só do distrito de Braga, mas também, por vezes, doentes com «situações graves» do Porto e de Viana do Castelo que obrigam a um longo internamento.   «Temos sempre lista de espera», indicou o psiquiatra, segundo o qual o país podia ter mais e «melhores» unidades hospitalares psiquiátricas públicas. A Casa de Saúde do Bom Jesus recebe doentes agudos de hospitais públicos e privados, mas não é suficiente para cobrir toda a área do concelho de Braga. A maior parte são doentes triados pelo Hospital de Braga. Apresentam várias patologias: esquizofrenias, dependência do álcool, depressões. «Nós somos o prato forte que aguenta toda a parte aguda», assinala. No entender de António Palha, se não fossem as casas de saúde da rede gerida pela Ordem Hospitaleira de S. João de Deus e pelo Instituto das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, Portugal «estava perdido». Em Braga, nos Açores e na Madeira, por exemplo, só há unidades [psiquiátricas] dos Irmãos e das Irmãs. O Instituto das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus está a construir em Braga dois novos edifícios que vão funcionar com todas as unidades da casa atual, em Nogueiró, e mais algumas valências. Na unidade grande haverá um piso exclusivamente dedicado às demências. Uma área será ligada ao tratamento da parte aguda da demência e outra parte será para internamento de longo prazo, ou seja, para residências psiquiátricas (demências e psicoses). «Vamos criar condições ótimas de vida para os doentes, porque vamos ter num espaço maior a mesma população de doentes», disse António Palha. A estrutura dos dois edifícios está praticamente concluída, mas ainda não há uma data previsível para a entrada em funcionamento das novas instalações da Casa de Saúde do Bom Jesus. As atuais instalações, que desde há quatro meses têm internamento de homens, serão convertidas em unidades mais pequenas. A Casa tem a funcionar também uma unidade de toxicodependentes, só para desintoxicação, com capacidade para 12 utentes. António Palha gostaria que se fizesse uma "clínica da memória", para investigação, estudo ambulatorial clínico das capacidades mnémicas, lembrando que a Casa de Saúde do Bom Jesus esteve ligada, desde sempre, a processos de investigação, quer com a Faculdade de Medicina do Porto, quer com a Universidade do Minho.  

Diagnóstico é fulcral para despistar pseudodemências

O diretor clínico da Casa de Saúde do Bom Jesus alerta para o risco de se confundir demências com pseudodemências. António Palha diz que há muitas pessoas rotuladas de demência, mas não padecem desse problema, muitas vezes sofrem de situações depressivas. É o caso de certos idosos que, não sendo bem diagnosticados, acabam por ser colocados em lares e ficam alheados da família. António Palha realça a importância dos projetos de ajuda ao diagnóstico e à prevenção das doenças mentais como forma de diminuir as taxas de internamento e reinternamento no país. «Uma unidade hospitalar não é um depósito de doentes. Os doentes devem estar sempre em tratamento em cada fase da sua doença, no sentido de atrasar essa evolução, ou se chegarem ao fim da linha terem uma qualidade de vida que proporcione uma vida digna», refere. O psiquiatra defende que se devia apostar mais na estimulação cognitiva e em mais lugares vocacionados para fazer essa estimulação em pessoas depressivas. «Hoje está provado que a estimulação cognitiva faz a formulação dos neurónios, a neurogénese. Admite-se uma neurogénese mesmo numa pessoa idosa, através da estimulação cognitiva», disse. Notando que nem todos os doentes com défice cognitivo evoluem para a doença de Alzheimer, António Palha insiste na importância de um «bom diagnóstico» e lembra que, ao contrário do que se pensa, o tratamento das alterações do comportamento, a psicopatologia, «não demora dias, às vezes demora semanas». «Existem dados que nos dizem que desde os primeiros sinais de pessoas com défices cognitivos da doença de Alzheimer até ao diagnóstico às vezes vão dois ou três anos. O diagnóstico não é imediato. Às vezes até para fazer diagnósticos diferenciais, entre o Alzheimer e as depressões e outro tipo de demências, é preciso muito tempo de observação, avaliação, estudo», reforça Patrícia Godinho, psicóloga da Instituição.
Nem todos os pacientes com demência ou défice cognitivo evoluem para a doença de Alzheimer.
Lembrando que o processo de demência tanto pode ser muito rápido como pode durar anos, a profissional enfatiza a ação da Casa de Saúde do Bom Jesus no acompanhamento do doente, mas também no acompanhamento dos familiares e dos cuidadores, no sentido de «perceberem como atuar e terem alguma informação de como a doença irá evoluir». Neste momento, a Instituição tem duas unidades mais orientadas para a psicogeriatria e para a área das demências e conta, desde 2010, com um gabinete (GIS) que disponibiliza um conjunto de serviços Integrados de Reabilitação Psicossocial na comunidade, promovidos por uma equipa multidisciplinar.
Autor: Jorge Oliveira