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Virar costas ao mar

Já fomos grandes no mar, autênticos gigantes e senhores do mar; por isso, os heróis do mar que cantamos no Hino Nacional (A Portuguesa) são, agora, heróis apenas do nosso imaginário histórico.

O nosso mar que já foi sinónimo de Império desenhou a Estrada Larga que nos levaria pelas sete partidas do mundo onde chegámos e deixámos marcas da nossa identidade e matriz histórica; e era o mar das Descobertas, sofridas e choradas, mas enormes na sua epopeia de miscigenação e evangelização.

Éramos uma potência marítima, a décima quarta (14.ª) potência mundial da marinha mercante e com a maior indústria de construção e reparação navais do mundo; e detínhamos a maior indústria conserveira de pescado resultante de má frota de pesca de longo curso – fator de motivação, orgulho e esplendor nacionais.

O mar que também sempre foi cemitério de margens e de horizontes, de sonhos e de vidas; e, como bem canta Fernando Pessoa no poema Mar Português, inserto na Mensagem:

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas e Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a apena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem de passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

Com o 25 de Abril de 1974, fruto de novas ideologias e valores, começamos a virar costas ao mar; e este elo multicentenário de ligação que com ele tínhamos quebrou-se por ação dos pruridos antitudo, mormente contra contra as possessões ultramarinas e as visões isolacionistas do Estado Novo, desenhados por forças políticas de esquerda e extrema-esquerda.

E, assim, certos políticos de ocasião, sempre que falavam do mar, era para seu próprio uso e pano de fundo de discursos, bravatas e realizações comezinhas; e, frequentemente, desmantelando estruturas com ele relacionadas e ignorando projetos de lançamento de ações navais e marítimas.

Depois, com a adesão à União Europeia, uma política comum de subsídios, cotas de pesca e definição de zonas exclusivas leva ao desmantelamento de barcos e demais estruturas de apoio às pescas de curto e longo curso; e, então, cada vez mais nos fomos afastando do mar, ignorando e passando ao lado das riquezas que sempre encerrou e nos disponibilizou; e, de povo de marinheiros e heróis de águas salgadas ironicamente passamos a bolseiros de águas doces.

E porque o nosso mar sempre foi inesgotável fonte de recursos económicos e ampla estrada de ligação entre povos e nações, ao virar-lhe costas deixamos de usufruir plenamente dos benefícios daí resultantes; como, igualmente, sonegámos parte das vantagens de sermos donos de uma enorme Zona Económica Exclusiva.

Agora, os ecossistemas, a sustentabilidade ambiental, a energia eólica, a fauna, a flora, a via de exportação, através do porto de Sines de gás natural dando um forte impulso às energias renováveis que o mar sempre nos ofereceu, de mão beijada ignorados foram ou negligenciados; e sempre que seja preciso inovar, avançar e arriscar em ações marítimas os nossos políticos são de vistas curtas, pouco ambiciosos e patrióticos e sempre argumentam que somos muito pequeninos, que não somos um país oceânico de considerável dimensão numa clara negação das gestas de Gamas, Cabrais, Magalhães e Colombos.

E, pateticamente, só temos aproveitado o nosso imenso mar para vender férias, pescas submarinas, desportos náuticos, ondas gigantes e mergulhos que, num ápice se esgotam e pouco ou nada deixam nos cofres do Estado; e, assim, o mar, o nosso imenso mar releva mais de acanhado leito de lembranças, mágoas e lágrimas do que de imensa estrada de esperança, desenvolvimento, empreendimento e futuro.

Então, até de hoje a oito.


Autor: Dinis Salgado
DM

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30 março 2022