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Verão de S. Martinho: uma metáfora da caridade

O milagre do Verão de S. Martinho que invariavelmente se repete todos os anos, aí está, mais uma vez, a interpelar as nossas consciências: com tanta pobreza em Portugal e no mundo, com tantas desigualdades e injustiças, somos chamados a dar as respostas mais adequadas, não apenas com palavras e oração, mas sobretudo com obras.

Convida-nos à partilha. Insta-nos a que tornemos o mundo mais solidário e mais justo e a que, em nome da dignidade humana e dos valores do Evangelho, afrontemos decididamente o problema dos pobres e dos marginalizados, reconhecendo neles o próprio Cristo.

E este crucial desafio é igualmente lembrado e corroborado no próximo Domingo, Dia Mundial dos Pobres, que o Santo Padre instituiu com o expresso desejo de nos convidar para a “generosa fantasia da caridade”.

Confesso que aquela lenda ou milagre sempre me fascinou desde menino. Ouvir contar que, no remoto ano de 337, quando um Outono chuvoso e frio assolava a Europa, um cavaleiro do exército romano, a prestar serviço na Gália, de seu nome Martinho, regressava a casa, sob uma forte tempestade, topando a meio do caminho um mendigo tiritando de frio, que lhe pediu esmola, nada mais tendo consigo, retirou das costas o manto que o cobria, cortou-o ao meio com a espada e deu metade ao mendigo e que, nesse momento, a tempestade desapareceu e um sol radioso começou a brilhar, prolongando-se o bom tempo por três dias, marcou-me profundamente, tanto mais que, reza ainda a lenda que, na noite seguinte, Cristo apareceu a Martinho num sonho, usando o pedaço de manto que este dera ao mendigo e lhe agradeceu por O ter aquecido no frio.

E diz-se que, dessa noite em diante, Martinho decidiu que deixaria, como deixou, as fileiras militares para se consagrar inteiramente às coisas da religião.

Deixando o domínio da lenda ou do miraculoso – que mesmo aos não crentes não deixará de sensibilizar pelo seu fundo genuinamente humano e filantrópico –, é facto histórico que S. Martinho, Apóstolo da Glória e Bispo de Tours, se distinguiu na prática da caridade, levando uma vida exemplar e notabilizando-se na acção missionária e pedagógica, de importância capital na cristianização da Gália.

Diz o seu principal biógrafo, Sulpício Severo – que igualmente foi seu discípulo e amigo – que S. Martinho recebeu dons místicos e operou muitos prodígios milagrosos em benefício dos pobres e doentes que tanto amparou.

Ora, foi justamente esta vivência dos ensinamentos cristãos e a prática da caridade que o fizeram padroeiro dos pobres e o elevaram aos altares, tornando-o um dos santos mais populares da Europa medieval, para cuja civilização cristã muito contribuiu.

Como dele disse Bento XVI, “com esta lógica de compartilhar se expressa de modo autêntico o amor ao próximo”.

Vale assim a pena reflectir na prodigalidade dos milagres e na bondade ilimitada de S. Martinho, quando se encara o desafio ingente e actual de resolver o problema da pobreza, num mundo enregelado pelo egoísmo, pelas desigualdades e pelo materialismo.

Ao comermos as castanhas e ao provarmos o vinho novo, como manda a tradição, pensemos como pôr em prática o calor da partilha e da caridade em todas as estações do ano, fazendo como S. Martinho fez. E o milagre acontecerá!


Autor: António Brochado Pedras
DM

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16 novembro 2018