twitter

Venezuela, do “Magalhães” à “crise do pernil”

1.A “crise do pernil” de Dezembro de 2017). O final de 2017 vai ficar para a História da Venezuela (e das relações luso-venezuelanas) como o sugestivo tempo da evitável crise “do pernil”. O simpático presidente Nicolàs Maduro aparece inopinadamente na TV do Estado a acusar Portugal e os portugueses de serem uns verdadeiros “sabotadores” da atempada importação por Caracas de “2 gigantescos barcos” carregados de pernil de porco. Cujo destino eram as festas natalícias e de fim de ano, durante as quais o Estado brinda parte do povo mais carenciado com cabazes alimentares que incluem aquela saborosa secção traseira da robusta anatomia porcina. 2. Um presidente com o mesmo nome do Pai Natal não pode falhar…). Tal como o seu antecessor e fundador do estranhamente designado Regime “Bolivariano” (o saudoso general Hugo Chávez), Maduro colou a si mesmo a imagem do homem sério e “que não falha”. Para mais, o seu 1.º nome é Nicolàs, o mesmo do semi-lendário S. Nicolou, um santo do séc. IV originário da actual Turquia; mas que os americanos e escandinavos fizeram emigrar ilegalmente para as geladas florestas do Norte da Europa. E prosperar na vida (recentemente até já substituiu a sua clássica quadriga de renas por um esquadrão de Mercedes-Benz brancos, guiados na retaguarda pelo seu carro vermelho, da mesma marca). 3. A colónia portuguesa treme). À partida, a vasta colónia portuguesa na Venezuela não se vai sentir nada confortável (ela que aliás nunca foi lá muito “bolivariana”…) perante as ameaçadoras declarações de Maduro. Espero que (e o assunto é bem sério) esta crise, qualquer que tenha sido a sua verdadeira origem, não vá degenerar em hostilidade contra os numerosos madeirenses (e outros portugueses) que por lá são trabalhadores ou empresários, sobretudo nos ramos da distribuição alimentar, das padarias e dos transportes. Até o “remexido” pai das gémeas Mortágua, um oliveirense (de Ul), hoje pacífico rico proprietário na bela região alentejana do Alvito, trabalhou na Venezuela como padeiro e como radialista, na sua já tão remota juventude. Quando eu era miúdo, lá nas aldeias de Oliveira e da Feira, normalmente o pessoal que ia para o Brasil ou África portuguesa era de famílias mais importantes que aquele que ia para, p. ex., Venezuela, França ou Alemanha. 4. “Memórias” do tempo de Sócrates e de Chávez). Hoje, todos pensam que as relações de José Sócrates com o governo de Hugo Chávez andaram sempre “de vento em popa”. Só que a memória dos povos é curta… Antes de o “destruidor dos vales do Sabor e do Tua” ter sentido necessidade dos “petro-dólares” venezuelanos, houve uma fase inicial em que o “alijoense que cobriu as nossas serras com caríssimos parques eólicos” se portou muito mal com o generoso e nobre aspirante a ditador de Caracas. Este último, em certa campanha eleitoral, auto-promovendo-se, lembrou-se de colocar, nas principais avenidas da sua capital, gigantescos “posters” em que aparecia, alternadamente, com grandes líderes estrangeiros. Ora, num deles era com o então PM português, Sócrates. Pois, não é que (certamente por sugestão do nosso sempre tão cutileiro e mourisco “foreign office” lisboeta) o dito Sócrates não ordenou, desde Lisboa, que o pobre Chávez retirasse de imediato o “ofensivíssimo” cartaz? Assim foi, e o cartaz foi retirado… Anos depois, Chávez vingou-se, gozando com a dupla ministerial “Lino y Pino”. 5. Memórias dos Welser e de Carlos V, Colombo e Ojeda). Poucos sabem também, que depois do imperador “belga-alemão” Carlos V se ter tornado rei de Espanha , entregou aos banqueiros alemães Welser a administração daqueles vastos e belos territórios, habitados por Arawaks e Caribes. A concessão durou até 1546. A zona havia sido descoberta por Colombo em 1498, mas acho que foi Alonso de Ojeda que a baptizou de “pequena Veneza” (Venezuela), pela semelhança que certas aldeias “índias” do grande lago costeiro Maracaibo tinham com a cidade dos “doges”, onde em 1678 iria nascer Vivaldi. 6. Memórias do… “computador Magalhães". O consulado Socratista, de início pareceu uma governação normal. Um dos sinais de aviso de que talvez assim não viesse a ser, foi a visita do PM José Sócrates ao seu “novo amigo”, o pres. Hugo Chávez. Visita em que Sócrates se apresentou como verdadeiro vendedor (e demonstrador das boas qualidades, até da inquebrabilidade, se atirado ao chão…) do célebre “computador Magalhães”. As gravações de vídeo ou áudio (já bem parodiadas pelo “Governo Sombra” da altura) revelam um Sócrates até então desconhecido, a expressar-se em “portunhol” e com um discurso que mais parecia ser o de um verdadeiro vendedor comercial. Nunca de um 1.º ministro… 7. A completa “metamorfose” de Augusto Santos Silva). Na sua saborosa governação, esse talentoso (mas tão transparente) “alpinista político” que é o dr. Costa, tem sido apoiado por bom número de ministros e secretários, directamente importados do Socratismo. Um deles é o actual Min. dos Neg. Estrangeiros, Santos Silva. Ora este portuense foi, nos tempos de Sócrates e nos 4 anos do PM Passos Coelho, um verdadeiro provocador, com um discurso bastante desbragado e falho de respeito pelos adversários. Hoje, nada disso, ninguém o “tira do sério”, nem mesmo as tiradas televisivas do empático N. Maduro. Deve ter feito algum “curso intensivo” de diplomacia, fleuma e boas maneiras. Não se mexe, não perde a calma, não muda de expressão. Mais parece uma mosca aprisionada e envolvida numa teia de aranha. Se não mudou por dentro, deve-lhe custar mesmo muito… Mas já não é a 1.ª vez que dá boa conta do recado. Estou admirado!
Autor: Eduardo Tomás Alves
DM

DM

9 janeiro 2018