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Velho mas digno

Um destes dias fui fazer o meu passeio matinal para o Parque da Ponte. Vou lá muitas vezes beneficiar das sombras abundantes ou beber aos golinhos o sossego que dali se mistura com fragâncias. Normalmente faço o trilho habitual que rodeia o lago e, andando e desandando por ali, vagueio com passos sem rumo. Mas deu-me na veneta para ir visitar, pela porta da maratona, o velho estádio 28 de Maio, medalha do Estado Novo que virou 1º de Maio; “cristão novo” da democracia restaurada em 25 abril de 1974. O silêncio que ali se fazia ouvir apenas era cortado pelo pipilar de algumas aves que bicavam no relvado. E de longe, dos meus tempos de estudante, vinham-me ecos das multidões que ali aplaudiam os atletas da bola, injuriavam os árbitros, discutiam as jogadas e, no intervalo, iam ao bar interior molhar a garganta sequiosa. Mas agora aquele estádio de pedra de granito estava silencioso. Pareceu-me um reformado, triste e sozinho, cismático; parecia dizer, “as horas custam tanto a passar embora o tempo passe depressa. Causou-me pena aquela decrepitude. Enfim, estava ali derrotado o saudoso estádio 28 de Maio. Há tempos, enchi-me de esperanças ao ouvir dizer “ vamos construir um estádio funcional e moderno dentro do agora 1º de Maio”; isto será, é, dar novas pernas a quem já se julgava coxo. Que estádio se pode fazer dentro doutro estádio? Seja qual for esse projeto, só por si, só pela lembrança, traz-me ao anseio, o enleio da gratidão. Voltei, in memoria, ao estádio velho, e vi-me ali sentado, naquelas pedras negras e dizer-lhe: velho, levanta o ânimo porque vais certamente ouvir novamente a vida ecoar por todos os cantos, em reboadas de aplausos; velho, já não estás no corredor da morte, foste indultado. E, habituado ao ostracismo que sofreu durante todos estes anos, hei de julgar ver os seus olhos reganharem novos brilhos e a face voltar às cores coradas do seu clube de futebol masculino. Seja quais forem as modalidades que ali se desenvolverão, uma coisa é certa, a cidade volta a ter dentro dos seus muros um estádio em que pode ir a pé, descer a Avenida da Liberdade, e entrar em segurança pelas fartas portas de acesso, para aplaudirem o seu braguinha. A entrada pela porta da Maratona é um símbolo a preservar. Por favor, não a derrubem ou substituam por uma qualquer porta de abertura automática de alumínio anodizado. Não lhe retirem a majestade do granito por uma qualquer estrutura de cimento. A obra que nos anunciaram - um estádio dentro do estádio - deve ser gigantesca, mas tem de fazer-nos recordar o sujeito que ali viveu; tinha um rosto de que nos recordamos; para lembrar basta ter memória, para recordar é preciso ter amado. O estádio 1º de maio, ex-28 de Maio, pertence à cidade; foi doado a Braga e não ao clube mais representativo da cidade. Estou neste preciso momento sentado dentro do estádio a escorripichar recordações; sonho que o velho 28 de Maio me escutou; numa das suas negras bancadas de pedra, a minha vista vagueia por entre silêncios como fios de água que se engrossam e vão tornando rio. O pensamento do futuro viaja agora para o passado e, no retrovisor, vê os domingos de jogo da bola no 28 de Maio e recorda os pais a levarem pela mão os filhos pequenos, observa os rapazitos à porta pedindo a cada adulto, “leve-me consigo”, saúda a fila dos alunos do Internato! Era fomento: cada criança uma semente, cada semente um futuro a germinar adeptos do SC. Braga. Os olhos levantam-se para o monte sobranceiro onde os menos endinheirados, esticavam o pescoço para vislumbrar o relvado e festejar o golo na baliza mais longe. E tudo isto era S.C. Braga. E tudo isto pode voltar a ser Sporting de Braga Quem salvar o 1º de Maio, sem cosméticos que o desfigure, além da gratidão dos bracarenses, leva o futuro ao colo do passado.
Autor: Paulo Fafe
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21 março 2022