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Uma outra epidemia!

Senhor doutor, trago a Luísa (nome fictício) à consulta, não só por rotina, uma vez que fez quatro anos há poucos dias, mas também por já não saber como lidar com ela. Desde que me separei do meu marido, come mal, faz imensas birras, adormece com muita dificuldade e está insuportável. Durante a noite acorda, levanta-se e até sai da cama e não quer voltar a dormir. Não sei se é importante referir que estou em processo de divórcio litigioso e que a situação se precipitou quando a menina passou a ir ao pai ao fim de semana, de quinze em quinze dias”.

Este início de consulta, com mais ou menos cambiantes, é cada vez mais frequente na minha prática clínica do quotidiano, chegando a ser rara a semana em que não tenho uma ou mais situações idênticas à atrás descrita.

Símbolo inegável das múltiplas transformações sociais do nosso tempo, a frequência do divórcio não é mais do que uma dessas marcas que revelam fragilidades na construção das relações contemporâneas, hoje não raras vezes erigidas sobre bases pueris ou simples caprichos, na premissa de que se não der certo há sempre a solução da separação.

Mudanças profundas a que não serão alheias as facilidades de comunicar e viajar, a difusão das redes sociais virtuais e, porque não dizê-lo, à progressiva diminuição da religiosidade do povo e à renúncia de insubstituíveis valores ancestrais.

A vulgarização do divórcio, a par da liberalização do aborto ou a tentativa de legalizar a eutanásia não são mais do que a expressão de uma sociedade cada vez mais materialista e desumana, subtraída de valores éticos, não faltando quem afirme que são sinais dos tempos!

Sinais dos tempos de que não nos devemos alhear sob pena de estarmos a contribuir para o aparecimento de uma nova geração onde não faltarão cidadãos perturbados e desenraizados. Uma geração que tenderá a exponenciar as vivências do seu passado e a perpetuar no futuro as vicissitudes que teve de suportar.

Com um número de divórcios que desde os anos 80, apenas com ligeiras oscilações, não para de crescer (PORDATA – Base de Dados Portugal Contemporâneo), sem falsos moralismos ou juízos atávicos, julgo necessário que os Tribunais de Família e outras instituições vocacionadas para a proteção de crianças e jovens estejam cada vez mais atentos ao papel que lhes está reservado.

À sociedade em geral, requer-se que esteja alerta e sensibilizada para um problema que, a não ser devidamente acompanhado, condicionará o nosso futuro coletivo.

Aos pais separados, exige-se que se comportem racional e civilizadamente com os seus ex-cônjuges e se abstenham de usar os filhos como armas de arremesso nas querelas e disputas que possam manter entre ambos. Um filho é sempre do pai e da mãe e não pode haver privilégios nem de um, nem do outro. Impõe-se que cada um exerça os seus deveres de pai ou de mãe de uma forma humanizada e responsável. Mesmo assim, os descendentes de pais separados, em qualquer idade, nunca deixam de sofrer.

Neste tempo de enormes transformações e de grandes mudanças sociais, há que tudo fazer para preservar os seres oriundos de pais separados dos traumas que a separação dos seus progenitores sempre acarreta.

Lembrar isto aos pais da Luísa e de muitas outras crianças e jovens que como ela estão em sofrimento, é um imperativo que não pode deixar de ser citado.

Recordar aos pais separados que têm o dever de cuidar, proteger e respeitar os filhos que tiveram é uma obrigação da sociedade em geral e, em particular, de quem têm a incumbência de garantir o cumprimento da Declaração dos Direitos da Criança. Eles são sempre as primeiras vítimas da sua relação fracassada.

Avisar todos os casais, principalmente os mais novos, que atualmente o divórcio grassa como epidemia e que o casamento, muito mais do que uma dádiva de amor recíproco, é um compromisso que é necessário gerir com espírito de compreensão e tolerância. Sem este espírito, não faltarão motivos para terminar a relação.


Autor: J. M. Gonçalves de Oliveira
DM

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18 agosto 2020