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Uma acalmia irreal!

Nestes quentes dias de agosto, o anseio de boa parte da população centra-se em poder desfrutar de alguns dias de descanso que lhe revigore o corpo e o espírito.

Este desejo leva a um verdadeiro alheamento da realidade que possa perturbar a materialização daquele direito, brandas e efémeras são as reações lidas e ouvidas às grandes ocorrências que vão sucedendo um pouco por todo o mundo.

A situação de seca extrema vivida em muitas regiões de Portugal e da Europa, a par dos catastróficos incêndios em diferentes latitudes, são a consequência evidente das alterações climáticas que a mão do homem tem agravado, sem que se vislumbre um contundente grito de alarme que ponha fim à destruição do planeta.

A guerra na Ucrânia, provocada pela invasão da Rússia, ao fim de seis meses de destruição, horror e sofrimento, parece ter entrado na rotina da indiferença sem que se visionem esforços sérios da comunidade internacional para lhe pôr fim.

A profunda divisão da sociedade dos Estados Unidos da América resultante da ação do seu ex-presidente Donald Trump, que a todo o custo tenta livrar a sua responsabilidade na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, a par de outras peripécias como o desvio de documentos ultrassecretos, não augura nada de bom para a saúde da democracia americana.

A incerteza sobre o futuro do Brasil nas próximas eleições de outubro e o papel que Jair Bolsonaro pode assumir se não vier a aceitar uma possível derrota, é um pesadelo que paira sobre aquele país irmão da América Latina.

Em idêntico patamar podemos falar do escrutínio a acontecer no dia 24 deste mês, em Angola, pelas dúvidas sobre o comportamento que o partido no poder desde a independência, Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) possa assumir, fazendo mergulhar aquele enorme país lusófono numa grande instabilidade e até em nova guerra civil, em caso de desaire eleitoral.

Sem o mesmo paralelismo, mas não deixando de ser muito preocupante para o futuro da União Europeia, é o que se vai sabendo sobre as intenções de voto do povo italiano nas eleições gerais agendadas para 25 de setembro, que coloca a possibilidade do próximo governo ser liderado pela chefe do partido da extrema-direita, eurocética e próxima de Vladimir Putin.

Se todos estes factos além-fronteiras são desassossegadores e suscetíveis de merecerem a maior atenção, a conjuntura nacional não deixa de ser inquietante e digna de ser mais escrutinada. Então vejamos:

O catastrófico rol de incêndios a que o país tem assistido, apesar de ser um cenário repetido ano após ano, não deixa de ser um flagelo a merecer mais atenção, dando a ideia de que não tem sido feito o suficiente para minorar este cíclico tormento. Atenda-se ao rol de queixas das populações e dos autarcas que o fogo na Serra da Estrela ocasionou.

A situação do Serviço Nacional de Saúde continua periclitante, sendo raros os dias em que não seja noticiado o encerramento temporário de uma ou mais urgências de Obstetrícia e ou de Pediatria.

A polémica criada entre o Governo e a energética Endesa, ao fazer depender de análise prévia o pagamento das faturas daquela empresa resultantes dos contratos que tem com a administração pública, apesar das posteriores explicações do primeiro-ministro, António Costa, não deixa de configurar alguma sobranceria.

De modo mais flagrante e eticamente censurável, devo citar a recente contratação de Sérgio Figueiredo, feita pelo ministro das finanças, Fernando Medina, para o assessorar, configurando uma manifesta promiscuidade e uma afronta ao funcionalismo público, numa clara afirmação do quero, posso e mando.

Se a estes indiscutíveis factos juntarmos a notória apatia com que tem sido tratada a elevada inflação e o consequente aumento do custo de vida, verificamos que nem tudo é o que nos querem fazer crer.

Se a estes indiscutíveis laivos de arbitrariedade ligarmos o recorrente chumbo na Assembleia da República, pela maioria que sustenta o Governo, de algumas audições pedidas pelos partidos da oposição, confirmaremos que também nem tudo vai bem neste país glorificado pela pena de Luís Vaz de Camões.


Autor: J. M. Gonçalves de Oliveira
DM

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17 agosto 2022