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Um Museu da República? Porque não!

Tive o privilégio de participar, recentemente, nas filmagens da Série Vento Norte que a RTP exibirá daqui a alguns meses – um excecional trabalho de uma equipa muito vasta que estudou, leu e interpreta uma parte da história de Braga e da região, numa época conturbada para o país e para a cidade (1920-1928), que acabaria de culminar com o golpe militar chefiado pelo Marechal Gomes da Costa.

A história romanceada a partir do quotidiano de uma família aristocrática, está a ser filmada em vários palcos: Palácio dos Biscainhos, Largo do Paço, Mosteiro de Tibães e em algumas das artérias do centro histórico, a par de outros municípios como Arcos de Valdevez.

A experiência rica e útil fez-me recuar no tempo, mais precisamente a 2004, quando, então, propus ao Presidente da Câmara de Braga que desenvolvesse um projeto de musealização, para o bem e para o mal, da história da República em Braga (1910-1074) – um acerto com o tempo que bem falta faz às novas gerações, acomodadas pelo período de paz em que vivem, contrário à conturbada vida política, económica e social daquele período.

A ideia, mesmo que em moldes virtuais, não teve o epílogo desejado e alguns dos elementos e referências materiais daquele período acabaram por ir parar ao Museu da Assembleia da República. O contacto com esta série e particularmente com o autor da ideia e ator Almeno Gonçalves, um dos obreiros desta viagem pela história de Braga, que o viu nascer, despertou-me de novo para essa lacuna gigante no compêndio particularmente rico da história, pelo que o desenvolvimento de um projeto de tal natureza, seria um excelente contributo para a memória futura. Já muito se escreveu sobre esta matéria, inúmeros testemunhos foram deixados em livros, nomeadamente pelas mãos de Miguel Bandeira e de outros investigadores que se debruçaram sobre diferentes períodos da história da República no Minho.

Penso ser este o momento adequado para a sociedade civil, conjuntamente com o poder político, assumir esta demanda, criando condições ao nascimento de um projeto que elevará a cidade, do mesmo modo e com a mesma ênfase, que souberam erguer à condição de orgulho, a herança romana que daria o nome à cidade Bracara Augusta. A elevação deste projeto, no contexto de uma candidatura em preparação para que a cidade venha a ser em 2027, a Capital Europeia da Cultura, tem o mérito de nos fazer pensar como seria importante que elementos chaves da arquitetura e do quotidiano histórico, fossem devolvidos aos bracarenses e a quem nos visita. Do mesmo modo que se espera que o atual edifício do Largo do Paço, outrora ocupado pelo arcebispado e atualmente pela reitoria da Universidade do Minho, seja restituído em breve aos bracarenses, seria lógico que os Paços do Concelho tivessem o mesmo destino, esvaziando-se dos serviços administrativos e da Presidência, limitando-o a cerimónias carregadas de simbolismo para Braga.

Esta possibilidade abre as portas, igualmente, à resolução de uma outra ferida aberta pelas ruínas, nas traseiras do antigo Convento do Pópulo, que permanecem, assim, há demasiado longo tempo para que não se encontre para elas uma boa base de reconstrução que permitisse acomodar a Presidência e todos os restantes serviços camarários. A recuperação dos Paços do Concelho como Museu teria também o condão de devolver toda a envolvente ao usufruto pedonal e à visitação, tornando-o um lugar de eleição para a recuperação do restante edificado, ombreando com a Biblioteca Pública e o jardim de Santa Bárbara, que enobrecem aquele espaço nobre da cidade onde, ao que tudo indica, nascerá uma unidade hoteleira, ocupando o degradado edifício, outrora ocupado pelo Tribunal Judicial de Braga. São tudo boas razões para se reabilite um património e se construir um futuro cheio de memórias que ajudarão, estou certo, a tornar Braga, uma cidade melhor e respeitadora do seu passado. A oportunidade para captar o investimento necessário a este projeto integrado faz parte do caderno de encargos que tem vindo a materializar-se um pouco por todo o país, podendo engrandecer e fortalecer a escala cultural e a valorização do património que todos desejamos venha a marcar o futuro da cidade.


Autor: Paulo Sousa
DM

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23 agosto 2020