2. Encontrar Ramalho Eanes com D. Duarte Pio, junto ao túmulo de Afonso Henriques). Não hesito em dizer que Eanes e D. Duarte são personalidades que sempre tive em alta consideração. Nunca me tinha cruzado com eles (e com Eanes, infelizmente nunca mais me cruzei); e havia logo de ser ali, numa manhã ensolarada de Coimbra e na “presença dormente” do fundador desta hoje tão ameaçada e decadente Pátria. O ex-PR e o “pretendente ao trono” logo ali, naquele lugar tão simbólico… Era nos anos 80 e comemorava-se, naquele lugar, algo de que agora não me recordo.
Mas recordo, isso sim, que D. Duarte, esse homem com uma intuição quase mediúnica e com alto sentido cívico, procurou que o pequeno cortejo oficial não atrapalhasse a passagem dum autocarro, que na altura descia a rua Ferª Borges (pequenos gestos que revelam uma personalidade). D. Duarte, tive eu oportunidade de encontrar mais tarde, em duas ocasiões, e de trocar breves palavras: a 1.ª foi num certame de Valpaços (que já aqui narrei, no DM de 30-6-2010); a outra, numa conferência em Penafiel, sobre as “rotas do Românico”. Já ao hoje ancião Ramalho Eanes, a esse bem procurei ser apresentado, através dos meus contactos na Beira Baixa (e um deles, já falecido, ex-sargento na Guiné, era o saudoso José Duarte, de Sobral do Campo, que foi até seu guarda-costas, episodicamente). Só que, o albicastrense Eanes morava em Lisboa; e em Portugal promete-se mais do que se faz…
3. Com Drúlovitch e Filipovitch, no mesmo local). Este 2.º encontro improvável ocorre já na 2.ª metade dos anos 90. Estava eu de passagem por Coimbra e, ao cruzar em frente à mesma igreja de St.ª Cruz, deparei-me com uma concorrida manifestação, contra a ingerência dos EUA nas guerras dos Bálcans (e especialmente contra o inaudito bombardeamento de Belgrado pela aviação de Bill Clinton, à época um presidente que, devido ao caso Mónica Lewinski, tinha sido “capturado” pela sua ministra de origem judaica, Madelene Albright). Eu, já que estava de acordo com o ajuntamento, deixei-me ficar. E a certa altura deparei com os jogadores Drúlovitch (esse notável montenegrino) e Filipovitch, o sérbio. Consegui bater nas costas do 1.º, veiculando-lhe a minha solidariedade; mas na confusão, não consegui falar com Filipovitch.
E a este gostava de lhe ter narrado outro “encontro improvável”: fôra anos antes, nos arredores de Belgrado, numa pequena oficina em que mudei o óleo ao carro; e em que o gerente, um homem louro, careca e um pouco gordo, me disse “olhe, eu tenho um primo que joga futebol lá em Portugal, é o Filipovitch, conhece?”. A terminar, recordo que os participantes no ajuntamento de Coimbra estavam a ser profusamente filmados, começara a era do tão democrático “digital”, é claro…
4. O 3.º “encontro improvável” foi com Paulo Morais). Nas últimas eleições presidenciais, o candidato menos distante do meu pensar terá sido Henrique Neto. Porém, como aqui já confessei, acabei por votar em Paulo Morais, o portuense que fez toda a campanha numa lógica monocórdica de combate à corrupção. Não foi contudo por este tema que votei em P. Morais; mas sim porque ele foi o único que, antes da campanha, reprovara decididamente o projecto idiota de fazer uma impactante barragem num rio tão seco (e tão monumental) como era o Tua.
Estava eu com um amigo a passar no citado local de Coimbra, ao anoitecer, e deparei-me aí com a reduzida comitiva do dr. Morais, até dava pena. Detive-me e disse-lhe o que referi atrás, que ia votar nele, sobretudo porque era ele o único que defendera aquele belo rincão, agora mutilado, do património pátrio. O dr. Morais queria até que eu lá ficasse mais um pouco, porém desculpei-me, cheio de remorsos, já que tinha de regressar ao Porto, onde resido. Lá ficou Morais, no escuro do fim do dia, a distribuir os seus panfletos, com 3 ou 4 acompanhantes. E quem ganhou veio a ser o famoso prof. Marcelo Rebelo de Sousa, esse alto dirigente do PSD. Mas que hoje mais parece ser socialista e será uma espécie de irmão mais velho do dr. António Costa. Ou, como diz com certa graça outro conhecido meu, parece ser “o menos bronzeado dos gémeos Costa”…
5. Coimbra tem mais encanto, “depois da despedida”). A canção diz que é “na hora da despedida”, mas eu digo doutra maneira. E é fácil de explicar: quando lá estamos para estudar, muitos dos prazeres da cidade (que na 1.ª dinastia foi capital não oficial de Portugal) passam-nos despercebidos. Estamos lá só para trabalhar, para sofrer, para aturar a lotaria dos exames (e as injustiças de alguns professores), em muitos casos para aturar as praxes. Eu tinha iniciado o meu curso de Direito em Lisboa.
Porém, o meu pai resolveu transferir-me para Coimbra, cidade mais pequena, à qual, de início não me adaptei com facilidade. Hoje porém, gosto também muito dela e, ao menos uma vez por mês, vou lá matar saudades. O que eu podia contar de Coimbra! Recordo, a propósito, vários mestres, originários do Minho, dos quais fui aluno. Um deles foi o notável dr. Herculano Esteves (onde andará?), já não me lembro em que cadeira. Outro, o prof. Vasco da Gama Lobo Xavier (que me deu 14 em Dir. Comercial) e que era pai do dr. Lobo Xavier, do CDS. Ainda outro, o bondoso padre dr. Sebastião Cruz (salvo erro, natural da Trofa), que me deu uns merecidos 15 valores em Direito Romano e que passava por não ser tão “somítico” como os outros, a dar notas.
Autor: Eduardo Tomás Alves
Um lugar mítico, em Coimbra
DM
3 outubro 2017