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Um desafio com futuro

Hoje devia escrever sobre o que se está a passar na Ucrânia, que da vida por cá não há quase nada a dizer, já que tudo está suspenso do arranque da nova legislatura e do novo governo. Todavia, o tema deixa-me ansioso e, além do mais, muitos analistas e especialistas já dissertaram sobre ele. Apenas uma breve referência à tese estapafúrdia do Partido Comunista Português (PCP): a Rússia invadiu a Ucrânia e os Estados Unidos é que são os verdadeiros interessados! É em momentos como os que o Mundo assiste que se vê como o PCP está caduco, está ultrapassado. Desafiado na Assembleia da República a condenar a Rússia, este partido não o quis fazer. Não o pôde fazer. Está pela Rússia, a de Putin, bem se vê, a pátria do seu socialismo, a sociedade sem classes e onde todos se podem exprimir e manifestar em liberdade, onde não há oligarcas nem qualquer espécie de tirania!… Ah, o partido não acredita que houve uma “invasão” ilegal e sem qualquer fundamento lógico. Merecia que se lhe fizesse uma manifestação de contestação à porta da sua sede nacional e de cada uma das outras sedes espalhadas pelo país!

Apesar de António Costa falar em contas certas desde que começou a governar, o seu maior desafio vai ser, primeiro, acertá-las com os credores, para que o país não deva tanto e, depois, para que a despesa do Estado não cresça mais por via dos juros. É que no horizonte já se sente o cheiro da inflação que trará, inevitavelmente, a subida dos juros da dívida pública. Se o stock do calote continuar a subir, se os governantes continuarem a dizer para os credores “ponham aí no livro que pagamos quando pudermos”, vai ser um grande problema. Claro que se se confirmar o problema, e há uma fortíssima probabilidade de ser assim, o governo vai refugiar-se na cantiga de que o Produto Interno Bruto (PIB) cresce mais do que a dívida e dizer que em termos reais a dívida está até a comprimir. A primeira parte da desculpa pode estar certa, mas a segunda é enganadora. Imaginem que fazemos obras em nossa casa e precisamos de crédito. Ao stock da dívida que temos no nosso banco acrescentamos agora mais 20.000, perfazendo um total acumulado de 110.000. A moradia que valia 200.000, com as obras passa a valer 260.000. Acham que o facto da valorização do nosso imóvel ter sido superior ao empréstimo (60.000 contra 20.000) nos permite dizer que devemos hoje menos do que antes, mesmo que os juros do último empréstimo sejam relativamente baixos? Além do mais, o serviço da dívida vai exigir a afectação de mais recursos financeiros a essa responsabilidade, logo a deixar menos para outras opções, o que pode deixar-nos em maus lençóis.

A falácia das contas certas não nos pode continuar a iludir. O que Costa chama de contas certas é apenas uma questão orçamental, que não espelha muitas coisas, designadamente, o endividamento, cuja dimensão pode dar cabo do país. O problema não é simples. É um dos maiores desafios para qualquer governante. Precisa de muitos cálculos. Aquilo que é intitulado de contas é apenas uma pequena parte do exercício, um cálculo auxiliar necessário para a resolução do grande problema, que exige muitos mais passos e que devem ser bem explicados aos acionistas que somos todos nós. E isso não nos têm explicado os governantes, nem os que temos, nem os anteriores.

Desde que Sócrates tomou posse em Março de 2005, devíamos na altura 92.761 milhões, a dívida literalmente triplicou: está nos 278.490 milhões (dados de Dezembro de 2021). Três legislaturas completas e uns restos de outras duas, ambas tendo ao comando do país primeiros-ministros socialistas. Quase 17 anos de governo, onde se encaixam um pouco mais de 4 anos de governo social democrata, o de Passos Coelho. São 185.729 milhões de crescimento da dívida, 28,7% da responsabilidade do PSD e 72,3% da responsabilidade do PS. O desafio de inverter a situação tem futuro. Doutra forma, é o país que não terá futuro. O governo de maioria absoluta será capaz de dar futuro ao país?


Autor: Luís Martins
DM

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1 março 2022