A divulgação de uma investigação conduzida por uma comissão independente sobre abusos sexuais sobre menores no seio da Igreja francesa, veio reacender entre nós, com invulgar (mas justificada) intensidade, a discussão do tema «pedofilia».
A gravidade – e a monstruosidade – do assunto, se não justifica, pelo menos explica plenamente a paixão com que tem sido discutido. Mas, como em todas as discussões apaixonadas, pululam os erros de interpretação e análise que tapam o caminho para a verdade.
A verdade é que a pedofilia é um fenómeno tão antigo quanto a própria humanidade, comum a todas as épocas, a todas as culturas, a todas as civilizações e às mais diversas instituições. NÃO É UM FENÓMENO ESPECÍFICO OU CARACTERÍSTICO DA IGREJA – ao contrário do que vem sendo insinuado nessas prosas e discussões apaixonadas na comunicação social. Não! É uma praga transversal (como agora se diz) a toda a sociedade. Não é específica desta ou daquela instituição seja ela religiosa, laica, agnóstica ou ateia ou… estatal. Porque a todas pode atingir – e atinge.
Uma das instituições mais atingidas por esta acção criminosa – mais, muito mais, do que a Igreja – tem sido a Família. Mas ninguém vai, por isso, considerar a pedofilia uma característica da Família. E quem diz Família diz Escola ou qualquer outra instituição que acolha crianças (lembram-se da Casa Pia?).
Porquê então este ataque à Igreja disfarçado de combate à pedofilia?
A Igreja é constituída por mulheres e homens oriundos do mundo em que a Igreja vive. Para dentro dela tanto trazem as suas virtudes (por vezes heróicas), como os seus vícios (por vezes criminosos). E, a isso, não está mais incólume do que qualquer outra instituição. E, contra tal, nada mais pode fazer do que condenar o erro, descobri-lo, persegui-lo e castigá-lo.
Quanto à condenação, desde sempre ela foi clara. Porque para a Igreja, se a pedofilia sempre foi um crime gravíssimo, também sempre foi, e é, um pecado ainda mais grave. No seu seio, a gravidade é dupla. Daí a veemência da condenação.
Quanto à descoberta, perseguição e castigo todos sabemos que, durante tempo demais, estiveram negligenciados. Mas, a partir de João Paulo II, o Vaticano começou a reagir. Timidamente primeiro, de forma juridicamente mais positiva com Bento XVI e, finalmente com Francisco I que, numa iniciativa pioneira, lançou um combate à escala global contra a pedofilia, sem contemplações no que diz respeito à descoberta, perseguição e castigo.
Os Papas – sobretudo Francisco – não se acobertaram atrás da transversalidade do fenómeno. Assumiram, frontalmente, a sua cota parte de responsabilidade – por sinal que, quantitativamente, bem pequena em comparação com o resto do mundo. Não estiveram à espera que os Estados ou a chamada sociedade civil avançassem. Avançaram sozinhos e à frente, num pioneirismo exemplar.
Pena é que os Estados – nomeadamente o Estado Português – e a sociedade em geral não aproveitem o exemplo.
Aqui chegados, é altura de responder à pergunta que atrás ficou: «Porquê este ataque à Igreja disfarçado de ataque à pedofilia?»
Duas hipóteses são possíveis:
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Por ignorância de tudo quanto acima se resumiu e de tudo quanto se está a fazer, nesta matéria, em todas as Dioceses do mundo católico.
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Porque os «atacantes» estarão muito mais interessados em aproveitar o pretexto para manifestarem o seu não assumido anti-clericalismo do que em qualquer combate anti-pedófilo.
Nota: por decisão do autor, este texto não obedece ao impropriamente chamado acordo ortográfico.
Autor: M. Moura Pacheco